Parriot 2007 - Ano V - Entre a Terra e os Céus A Terra é muito mais do que um amontoado de gente e coisas. Não existe so um céu.
Viva entre a Terra e os Céus.
O blog entra de férias agora. É bom repensar coisas, idéias, conceitos, estruturas.
Mas neste período continuarei postando vídeos, músicas e coisa interessantes que for encontrando pelo caminho.
Um beijo.
E até.
TRILHA SONORA TOCADA NO BLOG EM 2007
1 DISPARADA – Zizi Possi
2 EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA – Márcio de Camillo
3 DON`T PANIC – Coldplay
4 O ÚLTIMO DIA – Moska
5 AL OTRO LADO DEL RIO – Jorge Drexler
6 LA VIDA ES UN CARNAVAL – Celia Cruz
7 LOS DEL RUSO – Gotan Project
8 MACK THE KNIFE – Ella Fitzgerald
9 LET ME LOVE TONIGHT – Harry Connick, Jr.
10 CONVERSA DE BOTAS BATIDAS - Los Hermanos
11 DANCE ME TO THE END OF LOVE – Madeleine Peyroux
12 QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO SEU QUARTO – Legião Urbana
13 HOW MY HEART BEHAVES – Feist
14 WISH I COULD – Norah Jones
15 MINHA FLOR, MEU BEBÊ – Cazuza
16 BIEN AVANT - Benjamin Biolay
17 UM VIOLEIRO TOCA – Almir Satter
18 CORAÇÃO VAGABUNDO - Gal e Caetano Veloso
19 FIX YOU - Coldplay
Escute a trilha durante o período de férias aqui no blog ou acesse algumas e outras de sua preferëncia pela Rádio UOL .
Foi num maio de 2005. Zapeando por aí no mundo virtual acabei topando com um blog que tinha a seguinte frase: Acho bonito uma criança que conversa sozinha, porque sei que ela, assim como todos nós, conversará sozinha até o dia de sua velhice. E pasme! Essa frase era minha. (Era porque considero que quando publicada uma obra deixa de ser sua). Vi a frase transcrita e não havia nenhuma indicação de seu autor: este blogueiro que vos fala. Reclamei, obviamente. Me bateu uma necessidade de Direito Autoral. E recebi a seguinte resposta em 30 de Maio de 2005:
Olá... Permita que eu me explique... (para que depois me desculpe) sou incrivelmente encantada com blogs que tem poemas e imagens, amo isso com toda verdade, mas encontro blogs que são repletos de tudo isso e fico tão empolgada que ... diante de tantos textos interessantes... salvo eles para ler um por um durante a semana, e acabo me confundindo depois, de onde tirei cada um. Alguns textos, ou frases me encantam tanto que coloco no meu blog, mas não pelo puro prazer de copiar, mas sim pq realmente me deixaram admirada! Peço desculas agora pela confusão qt ao texto, e da proxima vez, vou pedir primeiro. Bjos e pra finalizar: "Ame e dê vexame".
E como todo bom manteiga derretida, disse que ela podia pegar o que quisesse: minhas frases, minhas imagens, meu coração....e foi assim que fiz uma amiga virtual incrível. Uma menina linda, delicada, sensível. Dessas que dá vontade de passear todo final de tarde no meio de grandes árvores com copas imponentes e lagos com patinhos e marrecos.
E assim eu descubro que a vida é tão maravilhosa.
Especialmente a meu pedido, ela escreveu sua retrospectiva. E assim como ela um dia pegou emprestada uma frase minha pra dizer o que tá sentindo. Eu agora pego a dela, pra fechar o meu ano.
Não há muito a se dizer sobre 2007, só que ele foi incrível. Tenho a velha melancolia de dizer que ainda não consegui o que realmente quero, mas sim, foi um ano incrível!
Este ano, o filme que mais me tocou foi um francês chamado Um Lugar Na Platéia. O filme falava de pessoas, seus sonhos e as mudanças que buscavam pra suas vidas. Realmente incrível.
No dia em que o vi no cinema, saí e fui pra praia. Eram onze, onze e meia da noite e lá permaneci por uma hora chorando feito criança. Estava completando um ano de Rio. Tudo por causa de uma frase que uso para resumir meu 2007: Eu fiz tudo o que queria fazer. E quer saber? Tive uma vida incrível
31/12/ 2004 ... 2005 ... 2006 ...
23:59
sei que não serão os 10 segundos que antecedem a virada do ano que vão mudar minha vida.
na verdade, pode até ser que amanhã seja diferente...
um novo canto de passarinhos, uma nova flor que desperta.
a partir de amanhã eu vou perder 3 kg!
e aquele garoto vai finalmente olhar para mim ...
amanhã sim! vou ter coragem de sorrir para ele : D
e ele vai saber que ...
bem, talvez amanhã eu comece tudo mudando o caminho para casa, comprando uma roupa nova que realce as minhas bochechas ...
ah! amanhã eu vou ser mais paciente, demonstrar mais carinho, abraçar mais ...
vou mudar o corte de cabelo ... aprender um novo idioma, assistir alguns filmes franceses e programar uma viagem para as férias!
amanhã ... começo a fazer caminhada! mudo meus hábitos alimentares ... ¬¬
mudo o visual (será que a minha sandália nova vai combinar com aquele vestido?!)
e ... isso e aquilo ...
e bla bla bla ...
- quer saber?!
... acho que vou ali me encher de salgadinhos!
: ]
e hoje, bem... os 3kg's problemáticos de 2006 fazem falta no jeans 38 ...
hoje eu sei falar um idioma e quase meio! amanhã então ... nem se fala O.o
e ontem, pude ler um livro lindo ...
ah, e o mocinho vem sorrindo para mim já fazem dois meses Ô.ô
ontem descobri também o quanto a gente se entrega por pouco.
e descobri hoje que mesmo essas pequenas entregas são essenciais.
ontem descobri que - afável - é uma palavra bonita e hoje coleciono um monte delas!
ontem o céu estava todo estrelado ... e hoje, bem, hoje eu acho que chove mais tarde.
ontem descobri que montar uma árvore de natal nem é tarefa fácil.
e hoje ...
e amanhã ...
Rafaella Souza
Imagem do dia:
Sempre fui apaixonado por farol. Gosto da idéia de uma luz protegendo marinheiros. Como me considero, de certa forma, um marinheiro que vive em busca de mares nunca dantes navegados, não há melhor imagem para encerrar o ano.
De onde vem essas pessoas? Essas que do nada chegam ao seu blog e passam a frequenta-lo e a deixar comentários...de onde?
Assim é o Ed. Que apareceu um dia e começou a ler.
Convidei-o para a retrospectiva porque ele esteve muito presente por aqui em 2007. Ele me disse que não gosta de retrospectivas, nem de mudanças. Reclamou quando disse que o blog mudaria (Eu gosto dele assim).
E mesmo não gostando de retrospectivas, ele me mandou uma... E sou muito feliz por isso...
Alguns amigos estão atentos a este espaço desde o início dele. Se não desde o primeiro ano, pelo menos pouco depois.
Uma destas pessoas é a minha amiga (cujo pseudônimo escolhemos para sua participação no blog) Mariposa.
E já é o terceiro ano que Mariposa participa da Retrospectiva.
Fim de ano.. tempo de repensar e colocar na balança o ano que se passou: momentos bons e momentos ruins. Uma coisa posso dizer com certeza.. houveram MUITAS mudanças.. muitas mesmo.. e o ano não se cansa de me surpreender nesse quesito!!! Lembra aquele friozinho na barriga, aquela acelerada de coração?? Pois então... voltei a sentir... coisa que há muito tinha esquecido.... e agora por motivos diferentes ..... mas não menos importantes!
Estou feliz.
Me sinto um pouco confusa ao escrever, sabe aquele congelamento de não sei por onde começo? Então..
Lembro-me que comecei o ano assim... não satisfeita de como a minha vida se encontrava, mas com medo de mudar! E assim fui levando durante um tempo, mas a vida insistia em me mostrar que assim não dava! E dito e feito! Mudanças e mudanças ocorreram.... boas.. ruins... doídas, tristes... mas te digo.
NADA ACONTECE POR ACASO !!!!
Tudo o que ocorreu me fez tomar atitudes que talvez não tomaria se tudo o que aconteceu não tivesse acontecido.... e te falo com a certeza de quem chega no finzinho de um caminho (e inicio de outro)... valeu a pena. Obrigada!
Sinto-me grata ... triste, em luto pelo o que acabou, mas pronta pra recomeçar! E confesso... to com medo.... medo do desconhecido, do novo... com aquele friozinho na barriga...mas Feliz.. com aquele brilho nos olhos com a certeza de que este é um caminho certo a se seguir... nem que seja apenas por agora... mas é!
Imagem escolhida por Mariposa:
Outra pessoa especial que participa pela primeira vez da Retrospectiva é a Paulinha Lembi.
Conheci a Paulinha na faculdade e começamos a conversar de maneira muito despretensiosa por causa de uma carona que ela me deu uma vez. E foi amor à primeira vista. Linda, inteligente, delicada... Uma menina que dá vontade de estar perto o tempo todo. E por coisa do destino também fizemos um estágio maravilhoso num hospital psiquiátrico em Belo Horizonte. Discutíamos muita psicanálise e falávamos sobre a vida, os amores...
Quando pedi à ela uma retrospectiva, ela disse que seria perfeito para falar sobre seu ano em Paris, seus estudos, suas experiências, mas acabou que de uma forma muito simples, ela encontrou uma maneira dela de dizer essas coisas todas que sentiu e me anunciou da seguinte forma: Descobri na música de Caetano... vários de meus sentimentos indecifráveis ao longo desse ano.... continuo ainda tentando descrever o q é indescritível, na letra de sua música!
E aí está a letra:
ORAÇÃO AO TEMPO
(De Caetano para mim)!
Es um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo tempo tempo tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo tempo tempo tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo tempo tempo tempo
Entro num acordo contigo
Tempo tempo tempo tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo tempo tempo tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo tempo tempo tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo tempo tempo tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo tempo tempo tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo tempo tempo tempo
Quando o tempo for propício
Tempo tempo tempo tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo tempo tempo tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo tempo tempo tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo tempo tempo tempo
Apenas contigo e comigo
Tempo tempo tempo tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo tempo tempo tempo
Não serei nem terás sido
Tempo tempo tempo tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo tempo tempo tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo tempo tempo tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo tempo tempo tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo tempo tempo tempo
Um ano de amores esporádicos. Um ano de amores espalhados que termina sem amor algum ou com todos eles meio misturados. Ou com os mais especiais guardados um em cada lado do coração. Meio piegas.
Sou assim mesmo.
De Agosto em diante um turbilhão tomou conta dos meus dias. Turbilhão de viagens, horas em aeroportos, rodoviárias, cidades espalhadas pelo país.
Em Agosto finalmente me mudei para um apartamento meu, com meu quarto, minhas coisas. A tranqüilidade começou a se aportar perto de mim.
Em Setembro, a viagem mais esperada dos últimos anos: Porto Alegre. E fui com aquele gostinho de Deu pra ti, baixo astral, vou pra Porto Alegre, tchau.
E foi por aí mesmo.
Encontros com pessoas esperadas. Encontros inesperados. Poemas do Lorca entre peças de teatro, trem para Novo Hamburgo para a casa da prima, desfile da Farroupilha, chuva, coração explodindo. E uma paixão leve, sem crises. Dessas que começam com olhares pela noite e que terminam em boas risadas para se aproveitar cada minuto que não volta mais. Nona Sinfonia de Beethoven a Um Violeiro Toca. Novos Baianos e mais sorrisos.
Fim do Inverno. E na despedida, um vento leve e uma lembrança. Hoje é o primeiro dia da primavera. Você trouxe a primavera pra mim. E com a primavera, a primeira manhã de sol foi justamente a minha partida. E escrevi no dia 25 de Setembro no post Chimarrão, Teatro e Carinho:
Quando o avião decolou hoje e vi da janelinha e Guaíba tão pequenininho lá embaixo, meu coração ficou apertado. Me lembrei da prima com o sorriso no rosto, parada na porta, me vendo descer as escadas. Olhei pra trás e ainda pude trocar dois beijinhos no ar.
Lembrei de um último beijo, também jogado no ar na virada de uma esquina. E não sai da minha memória o rosto gravado..(...)
E se somos todos nuvens passageiras que com o vento se vai, e realmente somos, algo fica. Algo sempre fica.
Dentro de mim
Há tristeza sem fim
E eu preciso encontrar minha paz
Pra sorrir ou chorar
Tanto faz
Pra lembrar de nós dois
E deixar essa dor me deixar te dizer
Ai, como eu gostaria de te encontrar
Pra falar de amor, pra falar..
Ontem pensei que estaria melhor
Sem você, sem nós dois
Poderia viver
O meu mundo se pôs entre recordações
E a vontade de ser novamente seu par
Ai, como eu gostaria de te encontrar
Pra falar de amor, pra falar de amor
Convidei alguns amigos para falarem sobre o ano de 2007 da maneira que bem desejassem. Seja com um poema, um texto, uma imagem ou uma música...qualquer coisa...
Entre elas, minha linda Clarissa Vargas escreveu:
Nos caminhos das encruzilhadas
Vi meu amor despedaçar
Conquistei leões
Enfeiticei ruas
e questionei o destino
Qual o certo
ou incerto
qual prefiro?
2007 foi preparação para o ano seguinte
comecei pedindo a mamae Oxum
e agora agradeço sua proteçao
a fé me permite voar
confusões só vêm para um dia de fato, clarear.
Imagem escolhida pela Cla
Em Julho, estive em Brasília e pude desfrutar um pouco da companhia dessa menina linda.
E na época também escrevi no post O Silêncio que fala e o Silêncio Ensurdecedor em 29 de Julho:
Minha relação com o silêncio é de longa data. Eu sempre senti prazer com o silêncio. Lembro-me de que quando era criança adorava quando minha casa à tarde ficava silenciosa. (...)
Eu acordava com o barulho de rádio e a casa sendo varrida, a panela de pressão apitando, essas coisas todas. Mas aí, logo depois do almoço, vinha aquele silêncio de sesta. Era bom ouvir só o barulhinho do motor da geladeira.
Ainda hoje pra mim o silêncio é necessário e sei que as pessoas não entendem. Principalmente quem se envolve afetivamente comigo. Acho que o silêncio diz tanta coisa que quando me sinto obrigado a dizer algo só por dizer é como se um caminhão me atropelasse e aí falarei de coisas rasas. Me diga, por que dizer algo se não há nada para ser dito? Para suprir ansiedades? Para interagir. E interação lá tem a ver só com palavras?
Gosto de ver o mundo ao meu redor. Gosto de ver como as pessoas sorriem, como elas dançam, como elas tocam em quem elas amam. E meu olhar faz parte deste cenário. Ali, com meu olhar, estou dizendo tantas coisas que o verbo não conseguiria exprimir. Para alguns, o silêncio é ensurdecedor. Me ensurdece é o silêncio magoado, o silêncio triste, o silêncio amargurado e rancoroso. Os outros não.
Às vezes me calo também por falta de coragem de dizer. É que quando não falo, eu quero dizer e não consigo, então eu me calo.(...)
Episódio de hoje:LIBERDADE, IGUALDADE, FRATERNIDADE
E afinal de contas, o que é ser livre? É poder ir onde quiser, quando quiser? E fico realmente tentado a entender se algumas pessoas desejam tanto a liberdade, que isso se torna sua prisão.
Porque as vezes desejamos tanto a liberdade que nem percebemos as teias que o desejo possui.
Quero a verdade ou quero amar?
E assistindo Kieslowski fiquei me perguntando isso. Quando Julie quer não mais se envolver com alguém, quer a total liberdade, é realmente livre? Por que as coisas nunca são simplesmente as coisas? Por que tudo tem que ser tão mais complexo do que realmente são? Não acredito que ser livre seja tão simples.
Assim como igualdade. Afinal, o que é ser igual? O que tanto a justiça busca na igualdade? Todos somos realmente iguais? Perante Deus, perante a lei? Podemos ser livres e ao mesmo tempo iguais? Quando alguém comete um crime, o crime é o crime por ele mesmo? Quando você magoa alguém é simples desejar ser perdoado, mas e perdoar? É fácil desejar ser amado e amar? Quando um sujeito mata um executivo num Audi, com Rolex no braço e ele numa bicicleta sem conseguir trabalho é um crime?
Tenho certeza de que alguns lerão isso e me repudiarão porque considerarão minhas colocações como preconceituosas ou pretensiosas. Mas não estou concluindo nada. Estou me questionando. Dizem que questionar é bom. Eu questiono: somos realmente iguais?
Quando eu acho legal uma mulher pobre trabalhando ou quando vejo alguem pedindo na rua e me dá vontade de ajudar, eu ajudo porque eu acredito que possa fazer a vida de alguém melhor ou por que quero dormir tranquilo aquela noite? Sou realmente bom ou quero parecer bom para ganhar alguma coisa em troca?
Sou mesmo um príncipe?
E descobri que realmente é mais fácil falar sobre sentimento. Sobre amor, sobre montanhas coloridas pelo sol. É uma questão de aptidão. Não sou bom para discutir justiça social. Mas isso me exclui a possibilidade de pensar sobre? Sabe que não sei?
Hoje conversei com um garoto.
Ele mora num quitinete com mais quatro pessoas da família...
Hoje vi um toldo do qual pingavam gotas acumuladas da chuva. Uma gota de cada vez que lentamente partia da quina do toldo, desprendia-se com um cuidado medroso e se jogava na aventura da calçada. Ela era brilhante porque sobre ela refletia a luz branca do poste e embaixo, na calçada, lá onde gota a gota ia caindo havia uma marca de água.
Imaginei a cidade vazia e só aquele toldo, daquele prédio, naquela rua, do qual lentamente ia caindo gota por gota da chuva acumulada. E a música desse balé tedioso era tranqüila, uma valsa leve leve, sem grandes sonoridades.
Minha vida passou em frames por aquela gota. E me lembrei de um sonho que tive na última noite. Nele, alguém morria e eu me lamentava não ter dito pela última vez que amava. E não é o amor isto? Uma gota que se desprende de um lugar e passa a outro e a outro e a outro? E para ela é tudo difícil, porque é lento, porque ela precisa se soltar de um lado para cair em outro, num canto totalmente desconhecido.
E eu chorei. Chorei porque o cinema diz que é para sempre, mas a vida nem sempre imita a arte.
Eu fui dormir tarde, bem tarde. Para alguns seria cedo. Alguns que estivessem acordando porque quando o sol nasce é normal que algumas pessoas acordem.
E sempre gostei da noite. Mas nunca gostei do ar sorumbático de quem, como eu, gosta da noite. Gosto dos notívagos felizes. Dos que gostam da noite, mas não dispensam um bom churrasco domingo pela manhã. É que na verdade não gosto de nada que tente me enquadrar num arquétipo. Gosto da noite, mas gosto do dia. Já disse sob olhares surpresos que gosto de dormir tarde, mas gosto ainda mais de acordar cedo. À tarde é uma boa hora para se dormir. A manhã é sempre deliciosa e a noite é sempre tão silenciosa...
Boa para se sentar quieto, ouvir uma boa música, ler, conversar...
Mas gosto de casa vazia à noite. E por este motivo acredito que vá viver sozinho. Ou talvez seja uma decisão baseada no medo de não sofrer com a falta depois de me acostumar com a presença. Melhor ser sozinho do que ficar sozinho.
Eu tinha medo de dormir sozinho. Achava que a qualquer momento algém arrombaria minha porta e eu não saberia o que fazer. Gritar, correr, morrer...Não sei...Solidão é um mistério que ainda não consegui desvendar. Por quê me faz tão bem e ao mesmo tempo tão mal? Será fácil descobrir? E se a resposta não for aquela que eu esperava, o que fazer?
Sei que mistério maior é aquele que insiste em martelar na minha cabeça: "Quero a verdade ou quero amar?" Ouvi isso numa musica e fiquei pensando se para amar a verdade precisa ser abolida. Ainda não sei. Mas entre um e outro...sinceramente...acho que prefiro amar.
Tenho passado por dias estranhos. Conhecendo muitas pessoas diferentes e me assustando um pouco com a falta de laços mais fortalecidos. Sempre gostei de ter muitos amigos, não sou daquele tipo popular, falador, mas sempre gostei de saber que as pessoas com quem eu me relacionava eram realmente pessoas com quem eu tinha algum tipo de laço afetivo. E, amigos, tenho me fodido de verde e amarelo. Na verdade, tenho conhecido boas pessoas e algumas estão se tornado bons e quem sabe eu diria ótimos amigos. Isso continua acontecendo. O que tenho descoberto é que sempre me considerei como alguém que soubesse identificar nas pessoas o que elas tinham de bom ou de ruim. Era como se eu fosse um juiz etéreo, impassível de erro. Para os amigos que sabem das últimas histórias da minha vida, posso dizer que eu estava redondamente errado.
Deixar de acreditar nas pessoas não é o meu sonho de consumo. Deixar de confiar também não. Continuo confiando primeiro pra depois desconfiar. Mas é cada vez maior o número de pessoas que vêm me mostrando que estou errado. Não falo isso com amargura, nem como forma de me vitimar, falo com estupefação, com a estupefação de quem sempre acreditou. E acho que até nesse ponto o Rio de Janeiro tem me feito crescer.
Imagem do dia
Ao teu Encontro de Bluegirl
Retrospectiva de Comentarios
Em 2003 em meio aos anseios afetivos, um amigo de blog me escreveu:
Sobre a felicidade, esqueçamos a dor. A felicidade total é uma utopia e as utopias merecem ser buscadas ainda que saibamos não serem alcançáveis... Prefiro polianamente pensar que a felicidade possa doer por surpreender despreparados corações. Há tanta beleza no mundo que às vezes dói. Mais ou menos isso... - Adriano 15/03/03
Esta noite sei que tive sonhos estranhos que não me deixaram dormir. Há dias meu sono já não é mais o mesmo (ou talvez eu tenha simplesmente voltado a não dormir).
Os dias cada vez mais quentes, a cidade cada vez mais cheia e minha vontade é a de enfiar a cabeça dentro de um buraco.
Fui a uma festa ontem e preferi vê-la de cima. Quieto...
Dos sonhos estranhos não consigo me lembrar. Por mais esforço que eu faça. Sei que eram estranhos, ruins... Pesadelos? Não sei ao certo.
Acordei tarde. Cheguei atrasado ao trabalho com cara de sono e cabelo bagunçado. A ansiedade também se aprochegou. Tenho prova na quarta. Tenho cena na quinta. Tenho um aniversário para ir no domingo. Sou realmente o cara que acho que sou?
Foi um dia cheio desses pensamentos. Questiono a cada minuto minha passagem e descubro estupefato que um lado de mim quer escrever cem livros, aparecer nos jornais, produzir todas as peças que quiser e dirigi os filmes que quero dirigi (falando nisso já tenho o início do meu curta-metragem pensado). Mas o outro lado de mim quer fugir pra um B-612 e cuidar da rosa dentro da redoma. Mas redoma é algo que faz a solidão se prender. Redoma eu não quero. Quero. Não quero. Quero. Não quero. Quero. Queria...
Queria um beijo de criança. Dessas pequenininhas que sorriem pra você por nada e te dão beijinho estalado porque ainda não têm controle da boca. Beijo estalado é beijo inocente. Quero beijo inocente. Quero amor inocente. Porque amor inocente é bom de tomar sorvete. Amor inocente não pensa que precisa ser melhor do que todos os outros porque amor inocente acha que é o primeiro. E só de ser o primeiro tem que só ser e pronto. Quero vida inocente. Pra que quando a velhice chegar eu possa sorrir com os casais que se encontram pelo caminho...Mesmo que seja eu um velho sozinho sentado no banco da pracinha.
Quero usar chapéu a hora que quiser...
Quero tanta coisa, meu Deus! Que acho melhor tentar dormir pra poder sonhar...
Ando com medo de dizer "eu te amo", simplesmente pelo fato de que não tenho mais certeza se poderei dizer à mesma pessoa novamente a mesma coisa. Ultimamente as pessoas têm me despertado esse medo. Pessoas importantes pra mim. Qual o momento certo de dizer? O fato de dizer fará com que as pessoas ajam exatamente para que você se arrependa do que disse? E eu não sou de me arrepender, mas acho que a idade vai nos deixando assim. Palavras não são para o vento, elas são aquilo que nos resta. Quando você estiver sem nada, ainda lhe resta a palavra. Ou como disse Pablo Neruda, "podem nos arrancar tudo", mas a palavra não.
E acho que às vezes nos colocamos em armadilhas que nos criamos e ficamos perdidos porque não parece haver outra saída. Quando saída é tudo o que queremos. Mas como fazer? O que fazer?
Estou assim como um mês que não passa do meio e talvez um talento por pouco perdido.
Será que escolhemos as pessoas que amamos?
Imagem do dia
São caminhos que todos temos que percorrer.
"E o meu coração embora finja fazer mil viagens, fica batendo, parado, naquela estação".
S/T de Miguel Santos
RUÍNA Um monge descabelado me disse no caminho: "Eu queria construir uma ruína. Embora eu saiba que ruína é uma desconstrução. Minha idéia era de fazer alguma coisa ao jeito de tapera. Alguma coisa que servisse para abrigar o abandono, como as taperas abrigam. Porque o abandono pode não ser apenas de um homem debaixo da ponte, mas pode ser também de um gato no beco ou de uma criança presa num cubículo. O abandono pode ser também de uma expressão que tenha entrado para o arcaico ou mesmo de uma palavra. Uma palavra que esteja sem ninguém dentro. (O olho do monge estava perto de ser um canto.) Continuou: digamos a palavra AMOR. A palavra amor está quase vazia. Não tem gente dentro dela. Queria contruir uma ruína para a palavra amor. Talvez ela renascesse das ruínas, como o lírio pode nascer de um monturo." E o monge se calou descabelado.
Manoel de Barros Imagem de Hugo Amador "Pescador de Marés"
O primeiro post que escrevi foi em 09/01/03, o primeiro comentário foi deixado por uma amiga que disse depois de mais um devaneio meu a respeito de sonhos em 23/01/2003.
Pois é, pior é que nunca descobrimos se os sonhos valem ou não a pena ser sonhados... Beijos!!!!! -
E pra variar, eu dizia a respeito do medo que todos têm de amar e o quanto isso me magoava... e num dos posts eu me fiz a pergunta se era melhor deixar que as coisas se perdessem ou se era melhor arriscarmos, mesmo que o medo pudesse atrapalhar e ela disse em 29/01/03: Pois é, são questões como essas que jamais vamos encontrar as respostas se não arriscarmos... Belo post!!!! Beijos!!!!!!
E eu respondi a ela; Tininha, É aquilo que eu respondi naquele seu comentário. Pra que tanto medo se a vida é feita de erros e de um monte de tentativas, não é?
Acho que não mudei de opinião de 4 anos pra cá.
Um visitante desconhecido transcreveu o que escrevi no dia 06/02/03 (infelizmente o primeiro ano do blog foi perdido). Escrevi: "Sou narcisista, assumo. Tenho medo de andar com pessoas que sejam mais bonitas, mais inteligentes (ou que pelo menos eu considere isso). Não me repreendam! Eu estou tentando acabar com essa bobagem" -"Em uma das passagens do filme ele diz ao vampiro Armand (Antonio Banderas) que ele não tem época, não tem lugar. Sinto-me assim de vez em quando. Sem lugar, sem época, sozinho." -" Às vezes sinto falta de deixar falar mais alto o meu lado canalha e ordinário. Acho que os vilões são muito mais interessantes. Não quero que me vejam como uma Regina Duarte de calças. É muito chato". "São Francisco de Assis abandonou sua vida de luxos e prazeres e foi reconstruir a Igreja de São Damião... Enfim, quem são os loucos? Eles ou nós?" "Tenho um amigo que foi capaz de me dizer que um cara punk que encontramos no Maleta não era normal, eu virei pra ele e perguntei: "E você por acaso é normal? - Você é gay, quem é normal aqui?"" "Todo mundo quer agredir o outro de alguma forma. Isso é um saco e eu odeio."
Parece que algumas coisas realmente não mudam com o tempo...
Episódio de hoje:LIVRARIA MODERNA LITERATURA BRASILEIRA
A primeira vez que entrei na livraria de S. Roberto foi em 2002. Foi pra comprar um presente de amigo oculto pro meu amigo Marco Antônio que fazia teatro comigo. Procurei, procurei...Ele ficou lá me ajudando e acabei comprando uma coletânea com os melhores contos do Tolstói.
Eu não o conhecia. Apresentei-me dizendo que era amigo da Priscila, sua filha. Ele sempre muito sorridente ficou animado com o fato de me conhecer.
Imaginava a livraria de S. Roberto como uma livraria arrumadinha, como a Leitura que eu via no shopping. Era minha fantasia. E foi uma grande surpresa quando eu vi que era, na verdade, um sebo que também vendia livros novos.
Era uma livraria pequena. Mas achei tudo aquilo um barato. Mas o que mais me impressionou foi o S. Roberto. Um senhorzinho troncudo, mais baixo do que eu com vastos cabelos brancos... Era o Gepeto dos meus livros infantis! Era sempre uma calça com uma camiseta gola pólo.
O universo de uma livraria sempre me deixou encantado. Alguns anos antes eu havia conhecido um sebo no centro de BH que tinha um segundo andar capenga feito de madeira e lotado de livros. Nunca mais voltei lá, mas a imagem daquele lugar ainda está gravado na minha memória, mesmo tendo já 10 anos que o visitei.
É incrível o que nossa mente pode guardar de lembranças.
Não voltei tantas vezes à livraria do Vô Roberto (pai da minha mãe adotiva em BH só podia se tornar meu avô postiço), mas sempre o encontrava pelas festas da família. E a única coisa que eu sabia além de ele ter uma livraria era que havia lutado meses antes contra um câncer de pele fortíssimo. Venceu o tal câncer de maneira tão incrível que fiquei admirado com a força daquele homem.
Alguns anos depois, há cerca de dois anos atrás, o câncer voltou com mais força e infelizmente Vô Roberto veio a falecer.
A última vez que o vi foi no escritório em que trabalhava com Priscila. Não tive coragem de visitá-lo no hospital. Tive medo, na verdade. Medo de ver aquele homem forte, aquele homem que passei a admirar, morrendo...
Morreu no 26 de abril. Um dia depois do meu aniversário. Um dia antes do aniversário do filho dele. Um dia antes da data em que minha avó materna faleceu.
Após sua morte, ajudei a realizar o inventário da livraria Moderna Literatura Brasileira. E quando entrei pela primeira vez sem o Vô Roberto por lá foi como um choque. Tudo ali tinha o cheiro dele. E me lembrei então da primeira vez em que lá entrei.
"Oi S. Roberto, eu sou seu neto postiço. Jean. Amigo da Priscila".
Acho que todo mundo um dia na vida já parou pra pensar que nada no mundo é para sempre. Não adianta. Nada mesmo.
As pérolas morrem, as pessoas morrem, tudo aquilo que nós conhecemos, vemos...tudo... vai acabar um dia. (...) Sempre duvidei muito dos extremos, talvez porque às vezes eu sou muito extremo. Ou eu me entrego demais ou não me entrego. Ou eu amo ou ignoro. (...)
É bom pensar que esse mundo que hoje vivemos, um dia, não passou de parte de uma partícula mínima que se expandiu e se transformou no universo. E como o universo, tal qual o conhecemos, um dia teve um começo, também terá um fim. Como será esse fim? Não sei. Ninguém sabe. Mas isso é o menos importante.
O importante, pra mim, é pensar que o universo está dando um recado simples. Viva! E viva como se fosse o último dia. Um amigo me lembrou dessa música do Moska ontem: "Meu amor, o que você faria, se só te restasse esse dia?" Não é também para agirmos de forma inconseqüente, mas de forma coerente com os nossos sentimentos. Amar sem medo, viver sem medo, ir atrás dos sonhos...Expandir!!!
Episódio de hoje:VENTO NA JANELA. (Para se ler escutando Fix You - Coldplay)
Cortinas brancas. Leves. Penas. A brisa que vem da praia passa por entre postes, carros, pessoas. Sobe escadas e telhados. Vem bater na minha janela.
E com o vento vem um leve perfume trazido de longe. Perfume de amor. Perfume de sonhos refeitos em sorrisos lentos e tímidos.
Com o vento vem brilho. Brilho iluminado pelo desejo de viver arrebatadamente os sentimentos mais verdadeiros e simples.
O vento surge como mãos de carinho tocando um rosto adormecido pelo cansaço da espera. E faz reaparecer a esperança da chegada.
É só o vento? Talvez seja você. Sorrindo com seus olhos brilhantes e suas mãos... Que me fazem voar. E voando vou pelas cidades. Uma a uma. E como se tivesse asas meu coração quase escapa.
E as cidades vão se tornando pequenos pontos brilhantes. Porque é noite. E quando não há cidades, há montanhas, há mar, há pássaros dormindo em seus ninhos à espera de um novo dia de busca. E eu também busco. Procuro você. Olho para um lado e para o outro. Ainda não te vi. Mas tenho certeza de que ainda lhe verei.
Por entre as cidades vejo crianças dormindo e seus pais zelosos arrumando cobertores. Vejo amantes se amarem como se fosse a primeira vez. Esposas fazem café para seus maridos que olham admirados que aquela linda moça virou uma mulher maravilhosa e ele quase dorme porque sua alma se acalma. Porque tinha medo de que aquele amor, aquela paixão fosse acabar um dia e percebe que não.
Alguém escuta uma música no fone de ouvido e se lembra do beijo dado há poucos minutos atrás. Há poucas horas. Há poucos dias. Há poucos meses. Mas por mais poucos que sejam é sempre muito. É sempre demais.
Vejo sonhos sendo realizados. Vejo mãos sendo tocadas em encontros tímidos. Vejo pés caminhando em direção à praia. Ondas batem n'areia. A lua a ilumina. Areia branca. Pés que deixam passos.
Meu coração se angustia. Mas as asas continuam abertas. São lágrimas que caem de meus olhos. Mas continuo na rota. Conservo minha rota.
Minhas asas se abrem em seu maior esplendor para que eu possa planar sobre o céu. Sou o homem mais livre desse mundo. E então...Por entre montanhas, prédios, pessoas, animais, mares, luas e medos...Você.
Você...
Lentamente, eu desço. Me aproximo. Te vejo. Sorrio. Dou minha mão e te conduzo...
E cá estamos. Na minha sala vazia. No sofá. A TV passa um filme de amor e a última visão que tenho antes de adormecer é...
Seus olhos brilhantes, seu sorriso leve e sinto a brisa que entra pela janela depois de percorrer postes, carros, pessoas. Subir escadas e telhados. E na janela balança a cortina branca leve como pena.
E então descubro que assim eu sou mais feliz.
Finalmente o homem mais feliz do mundo.
Texto do dia
4º Motivo Da Rosa
Cecília Meireles
Não te aflijas com a pétala que voa:
também é ser, deixar de ser assim.
Rosas verá, só de cinzas franzidas,
mortas, intactas pelo teu jardim.
Eu deixo aroma até nos meus espinhos
ao longe, o vento vai falando de mim.
E por perder-me é que vão me lembrando,
por desfolhar-me é que não tenho fim.
Que trabalho me dá
deixar-te ir, ó dia!
Vais cheio de mim,
voltas sem me conhecer.
Que trabalho me dá
deixar sobre teu peito
possíveis realidades
de impossiveis minutos!
Na tarde, um Perseu
te lima as correntes,
e foges sobre os montes
ferindo-te os pés.
Não podem seduzir-te
minha carne nem meu pranto,
nem os rios nos quais
dormes tua sesta de ouro.
Do Oriente ao Ocidente
levo tua luz redonda.
Tua grande luz que sustém
minha alma, em tensão aguda.
Do Oriente ao Ocidente,
que trabalho me dá
levar-te com teus pássaros
e teus braços de vento!
São dias rápidos demais estes que vivemos. Rápidos demais... Você sente que às vezes chegou em casa e não prestou atenção que havia uma criancinha bonitinha andando com os pais pela rua? A criancinha tava lá de roupinha azul, bermudinha e bundinha de formiga saúva porque usava sob as calças uma enorme fralda descartável.
E os pais caminhavam, cada um pegando numa mãozinha do garotinho de azul, passeando pelo bairro e mostrando ao maravilhado menininho coisas que pra eles já era completamente banal... Ah! Ver o mundo pelos olhos de uma criança... Nenhum cachorro é um comum cachorro, nenhum carro é um comum carro, nenhuma placa de neon é tão comum assim...
E pela rua passeiam gatos, cachorros, crianças e pais ansiosos pela novela.
Amores começam como o vento que passa a soprar no meio da tarde quente. Amores terminam com a tarde quente que se transforma em fria noite. E assim a vida vai passando para quem não observa que a beleza está num passo dado para atravessar a rua.
A vida às vezes, pra mim, se parece com esses trens que passam pela vizinhança fazendo um grande barulho. Na primeira vez que você escuta, se assusta ou fica maravilhado. Depois se incomoda... Depois se esquece. E é nesse esquecer que vamos perdendo essa graça. Experimente abrir a janela esta manhã e olhar pra fora como se fosse a primeira vez... Olhamos com olhos de criança...E precisamos exercitar isso ao longo da vida porque assim como tudo que não é exercitado perde seu valor, iluminar-se com a descoberta também precisa ser praticado....
Sorrir por uma bobagem qualquer...Dançar no meio da rua com uma música que se lembrou... Deixar os olhos brilharem quando ficar feliz porque encontrou alguém que há muito não via..Alegrar-se com as pessoas porque nunca sabemos quando vamos perdê-las. Dizer "eu te amo" porque viver com amor é muito mais fácil. Tentar amar... Ter coragem de amar.
Deixar que aquilo que sentimos apareça em nossos olhos...Tentam nos ensinar que viver num mundo adulto significa deixar que coisas simples como essas aí se tornem bichos de sete cabeças. Tentam nos convencer que símbolos que representam sentimentos são patéticos e deixamos de acreditar na importância do que sentimos. Passamos a achar que aquilo que sentimos é desimportante. E desacreditando daquilo que sentimos passamos a nos levar a sério demais. Levando-nos a sério demais nos tornamos duros. Tornando-nos duros transformamos nossos corações repletos em vazios. E corações vazios não ficam bem em pessoas felizes.
No início deste ano me dei uma meta: me apaixonar. Não foi uma meta com prazo a ser cumprido, mas uma meta de vida porque sentia que minha vida estava vazia, sem graça e sem brilho. E eu não queria mais viver sem brilho, sem paixão, sem amor... Não sei onde de fato chegarei, mas sei onde quero chegar e isso já me basta. Entre metas cumpridas e não cumpridas, coloco-me mais uma: ver a vida com olhos de criança. Deixar que a vida me mostre seu brilho. Ceticismo não combina comigo porque eu sou naturalmente encantado com o que a vida possa me oferecer. E quero manter isso que quase perdi.
Gosto de me encantar com olhos. Olhos sempre me fascinam. Então, me deixe olhar. Permita-me com que me emocione. Permita-me chorar de felicidade...
Texto do dia
Se olhássemos com olhar de criança, brincaríamos mais e perguntaríamos menos, sentiríamos mais e explicaríamos menos.
Não haveria mistérios e se mistérios houvesse, não existiria a impossibilidade de desvendá-los.
O que haveria além da janela? Pergunta inútil, pois não haveria janelas... apenas amplidão, onde tudo caberia: bruxas, fadas, duendes, gnomos, estátuas, gente. Tudo real, na órbita do meu olhar.
Música sempre esteve muito ligada à minha vida. Foi através da música que aprendi a conhecer meu pai.
A música foi o primeiro contato com arte que tive. Lembro-me que quando tinha apenas três anos, meu pai tinha aquelas velhas fitas Basf, laranjadas e ficava horas ouvindo-as dentro do carro.
Era Abba que ele estava escutando. Havia também as músicas italianas e as francesas. Ornela Vanoni, Sergio Endrigo, Charles Aznavour...
Hoje não consigo pensar em um texto que não esteja ligado a música. As palavras saem como melodia e se não for assim, acho que fica sem graça.
Por isso esta trilha sonora. Em apenas 18 músicas tento traduzir o ano de 2007 que ainda está sendo muito importante, cheio de descobertas e mudanças.
Sejam bem vindos.
1 DISPARADA – Zizi Possi
2 EU QUERO É BOTAR MEU BLOCO NA RUA – Márcio de Camillo
3 DON`T PANIC – Coldplay
4 O ÚLTIMO DIA – Moska
5 AL OTRO LADO DEL RIO – Jorge Drexler
6 LA VIDA ES UN CARNAVAL – Celia Cruz
7 LOS DEL RUSO – Gotan Project
8 MACK THE KNIFE – Ella Fitzgerald
9 LET ME LOVE TONIGHT – Harry Connick, Jr.
10 CONVERSA DE BOTAS BATIDAS - Los Hermanos
11 DANCE ME TO THE END OF LOVE – Madeleine Peyroux
12 QUANDO O SOL BATER NA JANELA DO SEU QUARTO – Legião Urbana
13 HOW MY HEART BEHAVES – Feist
14 WISH I COULD – Norah Jones
15 MINHA FLOR, MEU BEBÊ – Cazuza
16 BIEN AVANT - Benjamin Biolay
17 UM VIOLEIRO TOCA – Almir Satter
18 CORAÇÃO VAGABUNDO - Gal e Caetano Veloso
19 FIX YOU - Coldplay
Pés irredutivelmente lentos. Pernas insustentavelmente pesadas. Boca vermelhamente desbotada. Eu perdidamente à espera.
Ruas cinzamente cheias. Passos lentamente irredutíveis. Amor, acho que caí. Acho que me machuquei. Acho que saudade é papel picado que lançam pelas janelas dos prédios em dia de festa. Acho que saudade é desses papeizinhos que vão caindo lentamente e calmamente se abrigam no seu ombro. E papelzinho azul. E papelzinho dourado. E papelzinho prateado. E papelzinho...E papelzinho... E papelzinho...Parece quen não pesa nada...Mas pesa..
Pássaros que cantam uma canção triste. Pássaros que cantam uma canção alegre.
Pássaros...Pássaros...Pássaros.
E me sinto tolo. Tolamente apaixonado.
Só quero o simples. E o simples às vezes me parece complicado. Mas não é quando o consideramos essencial.
Deixa eu chorar no seu colo, mãe. Pai...Deixa eu ouvir teu sorriso. Deixa eu contar toda a minha aventura? Deixa eu me sentir cuidado...Deixa eu me sentir menos solto.
When you try your best, but you don't succeed
When you get what you want, but not what you need
When you feel so tired, but you can't sleep
Stuck in reverse
When the tears come streaming down your face
When you lose something you can't replace
When you love someone, but it goes to waste
Could it be worse?
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
And high up above or down below
When you're too in love to let it go
If you never try, then you'll never know
Just what you're worth
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you
Tears stream down your face
When you lose something you cannot replace
Tears stream down your face
And I...
Tears stream down your face
I promise you that I'll learn from my mistakes
Tears stream down your face
And I...
Lights will guide you home
And ignite your bones
And I will try to fix you.
E ele acordou... A cidade estava toda vazia. Sem mar. Sem vento. Sem barulho... Era tudo silêncio e solidão. Não havia o S. João da banca de revistas onde ele comprava todos os dias seu jornal pela manhã.
O céu estava azul, continuava azul, mas não havia pássaros sorrindo pelas árvores e estas, tampouco se agitavam.
Não havia música, não havia passos, não havia luz. Era um sol sem brilho que ardia... Era um calor pouco quente.
Ele caminhou tentando entender tudo aquilo e nada fazia muito sentido. Ele não estava sentindo.
A menininha que sempre passava com o irmão em direção à escola, com sua bolsinha rosa e seus cabelinhos ainda molhados presos por uma maria-chiquinha. Era lindo. A menininha vinha pela calçada fazendo perguntas pro irmão mais velho que a levava ao colégio. "Por que o céu é azul?" "Por que passarinho voa e galinha não?" "Por que o mar é azul e a água que sai da torneira não?" "Peixe pode morrer afogado?" "O que significa tucano?" Eram tantas perguntas! E o irmão ia rindo pela calçada com toda aquela curiosidade de menina que queria abocanhar o mundo com as mãos.
Nada...Nem a menininha, nem as perguntas.
Nem o porteiro sorridente. Nem a mocinha da loja de bobagenzinhas que ele adorava comprar pra dar de presente...Ninguém.
E quem sabe aquilo era um sinal do fim do mundo? E quem sabe era uma loucura de sua cabeça tudo aquilo? Será que finalmente ele ficara louco como todos diziam? Porque uma pessoa normal não fica reparando nessas coisinhas pequenas. Uma pessoa normal não se apaixona e acredita no amor. Uma pessoa normal trabalha pra ganhar dinheiro não pra mudar o mundo. Pessoas normais não se alegram com um beijo, não se propõem a abraçar, não são repletos. Pessoas normais preferem ser solitárias, trabalhar pra pagar suas contas e comprar um novo celular. Pessoas normais não acreditam no amor.
E foi aí que ele descobriu que não. Não é que ele tinha ficado louco. É que naquela manhã ele acordou assim. E acordando assim, o mundo perdeu a cor. Era preciso mudar. Era preciso voltar a ser o que era. Era preciso voltar a acreditar.
Texto do dia
Conversa De Botas Batidas
Marcelo Camelo
- Veja você onde é que o barco foi desaguar
- a gente só queria o amor...
- Deus parece às vezes se esquecer
- ai, não fala isso, por favor
Esse é só o começo do fim da nossa vida
Deixa chegar o sonho, prepara uma avenida
que a gente vai passar
- Veja você, quando é que tudo foi desabar
A gente corre pra se esconder...
- E se amar, se amar até o fim
- sem saber que o fim já vai chegar
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Abre a janela agora, deixa que o sol te veja
É só lembrar que o amor é tão maior
que estamos sós no céu
Abre as cortinas pra mim
que eu não me escondo de ninguém
O amor já desvendou nosso lugar
e agora esta de bem
Deixa o moço bater que eu cansei da nossa fuga
Já não vejo motivos pra um amor de tantas rugas
não ter o seu lugar
Diz quem é maior que o amor?
Me abraça forte agora, que é chegada a nossa hora
Vem, vamos além. Vão dizer
que a vida é passageira
Sem notar que a nossa estrela
vai cair.
Cai uma chuva fina sobre o asfalto quente e pessoas mornas. E a chuva não castiga, cai lenta e pacientemente como todo amor que espera pra vingar.
E da chuva vem a água que aquece corações gelados e medrosos de amar. Porque chuva lembra vontade de se ter alguém por perto. Chuva lembra chimarrão, café quente, conversas tolas e filmes de comédia romântica.
Lembra bolinhos de chuva da mamãe cobertos de Toddy e açucar. Dedos melados sempre chupados pra que o sabor não termine nunca.
Chuva lembra solidão para alguns, mas lembra aconchego pra outros. Vontade de estar junto de quem se ama. Assim é o amor.
Eu acredito...eu sei que quando a gente ama pode tudo. E não tenho receio de nada.
Quero viver os instantes que puder viver.
Quero mais do que já tive.
Quero arriscar e amar até o fim.
Sem me preocupar com nada.
Tudo na vida é improvável.
Nascer é improvável.
Viver é improvável.
Eu não desisto facilmente daquilo que acredito.
Eu amo. Amo. E não acredito em finais fabricados, nem em acidentais.
Quem ama acredita no impossível.
Não tenha medo. Eu estou aqui. Meus braços estão prontos pra te receber e meu peito aberto não se importa com nenhum obstáculo.
E lá vamos nós, workaholics dos sentimentos. Queremos viver, viver, viver tudo em profusão de emoções. Que as sensações sejam intensas, inteiras, imensas e como rastio de pólvora passem. E assim são as paixões.
Mas e o encontro? Onde fica o encontro? E quando os olhos brilham de verdade o que se faz? É melhor deixar que fique na memória apenas como um momento bom ou enfrentemos os obstáculos e seguimos com a história pra ver até onde vai.
Por que os maus momentos sobrepujam os bons? Por que tememos tanto o amor comum do dia-a-dia? Por que queremos tanto esses amores loucos e apaixonantes que deixam nossos corações aos pulos e não nos acostumamos aos amores de café da manhã? Sempre achei melhor uma boa noite de sono fazendo carinho nos cabelos de alguém do que sexo selvagem dias inteiros.
Talvez eu seja esquisito.
Talvez eu seja diferente.
Ou talvez eu seja apenas romântico demais.
Da música:
Wish I Could
Norah Jones
We met in a place I used to go,
Now I just walk by it for show,
Can't bear to go in without you know,
Wish I could,
Wish I could.
But Annie is standing in the door,
With a look on her face I can't just ignore,
She tells me that her heart is sore,
And pulls me in,
She pulls me in.
She says "love in the time of war is not fair",
"He was my man but they didn't care",
"Sent him far away from here",
"No goodbye",
"No goodbye".
I don't tell her that I once loved you too,
Or about all the things we used to do,
I kiss her hair and think of you,
Walking down ,
The road you found.
We met in a place I used to go,
Now I only walk by it slow,
Can't bear to go in without you know,
Wish I could,
Wish I could,
Wish I could,
Wish I could.
Acordei com medo. E medo sempre me paralisa. Por quê? Eu pergunto sem ter muitas respostas...são só mais perguntas.
Tenho medo do escuro. Acordei no meio da noite com um receio...Fantasma, ladrão, gato? Era só o escuro mesmo que como bicho-papão veio atormentar meu sono.
Acordei com o coração apertado, com vontade de te dar um beijo, de dormir no teu colo e deixar a vida passar assim. Tive vontade de deixar a vida passar pra que meus cabelos fossem plumas em tuas mãos.
To com medo, mãe...To com medo, pai...Deixa eu chorar um pouquinho?
Eu to querendo que o amor seja verdadeiro e que sendo verdadeiro eu seja feliz e que eu sendo feliz tenha uma casa, um amor e um cachorro. Eu vou ter tudo isso? Eu mereço tudo isso? É muito pra um sujeito feito eu?
É demais querer amar e ser amado? É demais acreditar nisso? Tenho medo da liquidez dos sentimentos. Tenho medo da vulnerabilidade do amor...E vou sonhando assim, com o improvável, com o amor ingênuo de novela das seis...com o azul do mar...Não quero que a dureza da vida insuportavelmente real seja maior do que a minha capacidade de amar e de sonhar. Não quero me achar velho para sonhar...Não quero mais ter medo. Vem cuidar de mim, vem...
Poema
Cazuza
Eu hoje tive um pesadelo
E levantei atento, a tempo
Eu acordei com medo
E procurei no escuro
Alguém com o seu carinho
E lembrei de um tempo
Porque o passado me traz uma lembrança
De um tempo que eu era ainda criança
E o medo era motivo de choro
Desculpa pra um abraço, um consolo
Hoje eu acordei com medo
Mas não chorei nem reclamei abrigo
Do escuro, eu via o infinito
Sem presente, passado ou futuro
Senti um abraço forte, já não era medo
Era uma coisa sua que ficou em mim
E que não tem fim
De repente, a gente vê que perdeu
Ou está perdendo alguma coisa
Morna e ingênua que vai ficando no caminho
Que é escuro e frio, mas também bonito porque é iluminado
Pela beleza do que aconteceu há minutos ou anos atrás.
Imagem do dia
"..do tempo em que eu era criança..."
Foto de "honey"
Tragam-me olhos
Desses que brilham quando amam
Desses ingênuos e leves
Desses que encantam
Desses pelos quais nos apaixonamos
Tragam-me olhos
Mas verdes, de um ardor sincero
Mas claros, de uma felicidade preciosa
Que como estrelas se tornem brilhantes
Feito sereno em folhas jovens
Tragam-me o amor
Esse que esperamos a vida inteira
Nem que seja para viver por um instante
Esse que queremos beijar ininterruptamente
Esse que encontramos entre pedras e estreitas ruas
De modo quase assustador
Quase impossível de ser...
...Improvável...
Amanhã bem de manhã
Vou sair caminhando ao léu
Só vou seguir na direção
De uma estrela que eu vi no céu
Pra que fingir que não devo ir
Caminhos me levem
Aonde quiserem
Se meus pés disserem que sim
Vejo alguém seguindo além
Eu aceno com meu chapéu
Pois tanto faz de onde ele vem
Pode ser algum menestrel
Que vai e vem, sempre
Sem ninguém
Caminhos te levem, aonde puderem
Se teus pés quiserem assim
Mesmo me afastando de você
Sei que não te deixo me esquecer
Mas tente compreender minhas razões
Já faz um tempo
Em que eu vivi
Feito linha de um carretel
Olhei em volta então me vi
Prisioneiro de um anel
Não resisti
Foi bem melhor partir
Perigos me esperam
Abrigos não quero
Que meus pés decidam
Por mim
Mesmo me afastando de você
Sei que não te deixo me esquecer
Mas é nosso dever fazer canções.
Como tradicionalmente nos finais de ano eu convido aos amigos para escreverem sobre o último ano, suas conquistas, amores, desamores, fatos marcantes, imagens marcantes, venho novamente para chamá-los a participar.
A partir de dezembro celebraremos o ano de 2007 relembrando essas coisas e todos podem enviar suas histórias, imagens, músicas e o que mais vier à cabeça para falar desse ano.
Quem quiser, pode enviar seu material para jeancandido@hotmail.com.
Este ano será ainda mais especial porque em 2008 muitas mudanças serão feitas no blog, ainda surpresa, mas posso dizer que nada será como antes.
Vivemos num país que está entregue nas mãos da violência.
Isto é o que escutamos todos os dias e que agora está nas bocas dos brasileiros por causa do filme Tropa de Elite (que eu ainda não vi no cinema e me recusei a comprar DVD pirata porque aqui também reclamamos da corrupção, mas todo mundo ajuda no processo).
Porém, existem alguns tipos velados de violêcia que deixamos passar em branco porque nos acostumamos a eles. A censura, por exemplo. Pensamos na censura sempre de uma forma macro e deixamos de lado seus mecanismos na esfera íntima. Neste ponto, acho que os meios de comunicação de massa (leia-se TV, cinema e teatro comercial) são eficazes. A comunicação de massa utiliza-se do benefício do grande alcance para introjetar certos conceitos e pré-conceitos que ficam arraigados na cultura. São preciosos mecanismos de manutenção dos tacanhos moralismos a que nos submetemos há, no mínimo, dois séculos.
Quando consideram que a psicanálise tem a função de adequar o indivíduo à sociedade já é um princípio de censura. Impedir que alguém pense diferente dos outros e aja de forma congruente com seus pensamentos porque eles são inadequados é censura. Não falo da loucura que seria o extremo dessa questão.
Falo dessas pequenas censuras que nos aplicam no dia-a-dia com um simples "cale a boca" ou "não faça desse jeito que é feio" "Não diga palavrões" "não expresse seus sentimentos dessa forma". Repressões diárias que numa amplitude maior acaba no mesmo resultado: censura. Os pequenos repressores com maior poder se tornam os grandes censores.
Acredito na liberdade de expressão, na capacidade individual de pensar mesmo que diferente da maioria.
Ontem encerrou-se o Riocenacontemporânea, festival de Teatro e Dança do Rio. Foi um festival riquíssimo, com bons espetáculos, mas a sensação, sem dúvida alguma foi com Zé Celso Martinez. Um dos grandes expoentes do movimento tropicalista brasileiro na década de 60, Zé Celso continua na ativa (e que ativa!) com fôlego pra mais uns bons anos de protesto.
Zé Celso traz em cena uma grande ópera brasileira, no melhor estilo. Lá temos a história de "Os Sertões", livro de Euclides da Cunha que narra as expedições do exército brasileiro contra Canudos e seu Antônio Conselheiro. Assim como Euclides da Cunha fez um primoroso e completo trabalho sobre o Brasil, Zé Celso coloca em xeque tudo o que acreditamos ser o Brasil. O Brasil de Zé Celso é o Brasil das misturas e das separações. É o Brasil que de tão grande e diverso é também o Brasil do povo massacrado há séculos.
O Sertão que Zé Celso coloca no palco diz também do sertão que enfrentamos hoje neste país. Da corrupção indecente, dos evangelistas da podridão e da falta de ética, das especulações econômicas em detrimento das necessidades do povo. Os Sertões de Euclides da Cunha existe ainda hoje. Hoje as revoltas são abafadas pela televisão alienante, que coloca todos "num só rebanho de condenados" (parafraseando Ariano Suassuna). A luta de Zé Celso é pela Universidade Antropofágyca e pelo fim da especulação imobiliária do Grupo Silvio Santos que transformará o Bexiga num sertão cultural.
Mas vivemos esse sertão em todo o país. No Rio de Janeiro com a guerra explodindo e nenhum de nós fazemos nada. No Vale do Jequitinhonha onde a pobreza ainda é imoral mesmo num estado tão rico como Minas Gerais. No Sertão da Bahia que traz em seu território a mais rica bacia hidrográfica do mundo.
Há que se ter esperaça. Li a entrevista do Ministro da Educação na revista Veja onde ele diz que nossa educação é infértil. Já sabíamos disso, mas acredito que antes tarde do que nunca. E além disso, por falar em revista, nossa imprensa que é imunda, passa do marrom. E, pra completar, como só pensamos em nosso próprio pau a onda agora é não ler jornal. Porque só tem notícia ruim, porque só fala de política e assim vamos em frente, lerdamente.
Eu também estava entrando nessa de não ler jornal até que me toquei que eu preciso saber do que está acontecendo porque só assim posso desenvolver minha crítica. Falamos que o país está uma merda, mas não fazemos nada. Não fazemos absolutamente nada e enquanto isso a vida segue como o barquinho a deslizar no vazio azul do mar.
Acordemos amigos!
E Zé Celso reacendeu em mim uma certeza. A de quero uma arte do Brasil, sobre o Brasil. E é engraçado como nossas buscas nos levam às respostas. Tudo foi importante nestes meses. A mudança pro Rio, esta viagem a Porto Alegre, essa minha fé inabalável na cultura desse nosso povo.
E viva o Brasil!
Cena de "Os Sertões" - A Terra de Zé Celso no Riocenacontemporânea 2007. Eu estava lá.
Foto de Mônica Imbuzeiro
Texto do dia
IÓ! Brasileiros
Nós brasileiros, do Rio Grande do Sul ao Amazonas, em 5 de outubro de l897, nós, representados então, por 6.000 militares, massacramos em nome da Liberdade, Igualdade, e Fraternidade, a segunda maior cidade da Bahia ,depois de Salvador.
25.000 habitantes, edificada em Mutirões, de doze casas erguidas por dia, organizada em Conselhos, exportadora de Couro de Bode pra Europa.
Esta cidade possuía gente de crença enorme em si mesmo, em seu poder, 'uma crença forte e consoladora' como escreveu Euclides da Cunha.
Tudo isso foi Massacrado.
Ninguém da cidade de Canudos, se entregou. 'Caso único na história'.
Nossos representantes fardados, jogaram querosene e queimaram tudo e ainda,com gente viva lá dentro.
Nós, Recém Nascidos Republicanos, tornamos cinzas, apocalipse de yesterday como os de now, a rebelião de Canudos, a última da República Velha, a mais perigosa,
a mais rica, a mais audaciosa, a mais empesteadoramente bela!
Sobre esse sangue degolado, derramado no Palco da Luta, foi erguido o fundamento, a legitimidade a 'Ordem e o Progresso' da nossa atual Velhíssima República.
Depois do Apocalipse do Fogo, pouco a pouco, os sobreviventes da guerra e outros doidos de deus, retornaram ao lugar Tabu e construíram uma segunda Canudos.
A ditadura militar, trouxe depois do Apocalypse do Fogo, o Dilúvio das Águas.
A Cidade renascida foi inundada, A estátua árvore de Conselheiro, de Mário Cravo, onde o povo acendia velas ao Bom Jesus, foi retirada da praça de Salvador Bahía, depois do golpe de 1964.
Canudos foi reconstruída pela terceira vez. Teve seu apogeu no centenário de Conselheiro: quando foi asfaltada a estrada que levava ao Caminho
da Jerusalém do Sertão, Mas o asfalto da estrada virou pedra, não foi conservado.
A 3ª Cidade de Canudos, está agora, isolada de nós, e do Globo.
E não se conforma com isso, como Dona Joselina da Pousada Recanto Pôr do Sol.
Isailton, o guia memorialista do Museu de Canudos, guardião do Morro da Favela, tombado aos cuidados da Universidade da Bahia.
Está hoje, quase exatamente, como Euclides descrevia o lugar de antes da Guerra : 'a Terra Ignota'
A estréia mundial da mídia Telégrafo foi na Guerra do Fim do Mundo de Canudos, que tornou-se lugar conhecido em todo Planeta .
Todos grandes artistas brasileiros Glauber, Oswald, Gilberto Freyre, Nelson Rodrigues, Guimarães Rosa, e muitos e muitos,
ligaram-se na anunciação do povo brasileiro de ' Os Sertões'.
É o grão da nossa revolução cultural, a rocha viva regenerando, o ser-estar brasileiro, sempre.
Hoje o Sertão virou Mar, mas de lixo plástico.
Canudos tem agora 11.0000 habitantes menos que em l897.
Mas há lá, um povo novo, querendo crescer, com Lan House instalada há pouco tempo na rua principal, com a gestão do Prefeito Adailton, que faz aniversário no dia seguinte a Cosme Damião, um Historiador, uma criança muito apaixonada, por fazer tudo, por sua região, pela terceira vez.
Esta na hora de que todos nós brasileiros fazermos a redenção, a justa história, o pedido de perdão por estes Massacres, onde se inclui principalmente ,
o da nossa negligência de mais de 100 anos, por não ter feito nada pelo lugar, quando tomamos consciência que tínhamos destruído a nós mesmos,
a cidade deste povo irmão, deste sertanejo, antes de tudo um forte.
O Livro 'Os Sertões', foi o primeiro ataque ao o escândalo de dois Brasis desiguais, com a Repressão do próprio Estado Brasileiro,
massacrando, degolando, seu próprio povo.
Euclides foi inspirado por todas as línguas de fogo do Espírito Santo. Escrito em todas as línguas,
linguagens, ciências, poesias, começou a interpretar, através do Crime praticado pela nacionalidade, o próprio Brasil, para nós mesmos brasileiros e para todo mundo.
'Os Sertões' é o livro mais traduzido do Brasil. Da China, que o define shakesperianamente como 'Poema Ilimitado' à Alemanha, onde é lido em Papel Bíblia ,
numa edição da SurkampfVerlag, a maior editora alemã, como grande poeta da Guerra Atual Mundial do Terror de hoje ainda.
8 de outurbo de 2007, 40 anos do assassinato do Che na Bolívia pré-Guarani.
'Fanáticos' de todas as universidades do mundo, vem conhecer a cidade do DNA, inspirador do conceito de 'crime das nacionalidades' criado pelo brasileiro Euclides da Cunha em 2 de 12 de 1902 (data do lançamento do livro) no Rio de Janeiro; atraídos pelo sertanejo, antes de tudo, esse forte; pela estruturação ao vivo, política da cidade em forma de Muritão e Conselhos.
Desde o primeiro Massacre, nenhuma atitude concreta por nós brasileiros, foi tomada .
As cidades do mundo que passaram pelo que passou Canudos, foram reerguidas, Hiroshima, Berlim, Leningrado, Bagé, e tornaram-se pontos irradiadores de vida ,
Corações-Chacras do Amor Des-Massacrante.
Daqui do Rio de Janeiro , de onde o Brasil inteiro era convocado para Massacrar Canudos, escrevo, preparando-me para temporada em Quixeramobim,
cidade Natal de Antônio Maciel, o Conselheiro.
Esta cidade está em plena Primavera. Há movimento de seus jovens que nos convidaram e criaram condições juntamente com o Prefeito Edmilson Junior,
que bancou 50% do alto Custo das 5 partes de ' Os Sertões' para estrearmos lá, no dia 14 de novembro próximo.
A Secretaria da Cultura do Estado do Ceará, sob gestão de Auto Filho, apoiou fortemente, e criou uma logística para que ônibus de todo Estado acorram
para o coração do Ceará como é chamado Quixeramobim, e montem acampamentos para estar no evento.
Um pra lá de Woodstock dos tempos atuais.
De lá seguimos para Canudos, para fazer 'Os Sertões' no Belíssimo Estádio de Futebol, de Canudos.
Propusemos o apoio pessoalmente ao Governador da Bahia Jacques Wagner , e por telefone para a Pra lá de Primeira Dama Fátima, que tem se destacado como revolucionária incansável do crescimento da cultura na Bahia.
O Secretário da Cultura do Estado da Bahia, Márcio Meirelles, diretor do grupo de Teatro do Oludum, é um dos entusiastas desta ação.
Mas, não basta fazermos lá por cinco dias nosso espetáculo .
Baixa a Magia do Teatro, a Internet Transmite, o mundo comove-se ou não, e nós voltamos a São Paulo e Canudos retorna a Terra Ignota.
Não, isso não vai acontecer.
É hora do Desmassacre!
Pela luta contra o crime das nacionalidades, a favor do crescimento do Sertão Brasileiro , quero que os anos e anos de trabalho que nós da Associação Teatro Oficina Uzyna Uzona, tivemos, para fazer a incorporação de Theatro do livro de Euclides, como um real Desmassacre, inspirem como estão inspirando a mim, TeAtos:
atos, de investimentos maciço na irrigação das águas paradas do açude de Cocorobó, que serviu até agora, somente para afogar a Memória de Canudos.
Que se abram artérias e mais artérias da água no corpo da Terra, e faça da cidade um Vastíssimo Pomar Sem Donos.
Que Luciano Coutinho na Direção do BNDES, Gedel Vieira Lima ministro de integração nacional, do Ministério da Integração Nacional, o Ministro de Assuntos Estratégicos recém nomeado filósofo jurista Mangabeira Unger, Marta Suplicy, Ministra do Turismo, Gilberto Gil, Ministro da Cultura, promovam um movimento de investimento real naquele belo e riquíssimo losango da bandeira brasileira, Canudos, a Jerusalém dos Sertões, capital de todos os imensos quintais dos Estados do Nordeste que para lá dão.
O desenvolvimento econômico da região vai propiciar a epifania da Caatinga sob Guarda da Universidade da Bahia: o lendário Morro da Favela, assim chamado pela planta que é chapa fervente envenenada se a invadimos, mas que a carícia dos ventos das madrugadas, provoca orvalho do sons das lágrimas de Paulinho da Viola.
De lá veio a primeira Favela do Brasil ? a da Providência, onde, pra não morrer, foram morar os soldados do Exército Brasileiro contra Canudos, que não tiveram seu soldo pago pelo Estado, que faliu com a Guerra .
Canudos acesa, acende, o Monte Santo, o Razo da Catarina, a Pedra do Reino, as Cavernas de São Bom Jesus da Lapa e todas os sítios Iluminados do sentimento órfico brasileiro pagão chamado de 'fanatismo' pelos positivistas.
Para o Ministério das Relações Exteriores, de Celso Amorim, para o Iphan e a Monumenta de Fernando de Almeida fica a missão de liderar o movimento pela transformação de Canudos em Patrimônio Mundial da Unesco.
Neste lugar, poderemos os que estivermos vivos, brevemente proclamar a Nova Abolição do Cativeiro: O Fim da Guerra do Narcotráfico com a Descriminalizacão da Droga no Brasil e sua passagem pro Ministério da Saúde e sem deixar a Souza Cruz tirar o comércio das mãos dos que por ele lutaram, estes anos obscuros e sangrentos.
Presidente Lula, seu jogo de cintura, sua política de Caetê Antropófago, tem de estar na Pagelança deste movimento.
Esclarecimentos: Luis Paulo Neiva,da Universidade do Estado da Bahia (popularmente UNEB).a frente de uma equipe de cientistas, tem os estudos feitos para fazer realmente o Sertão virar PoMar, já. Informa:
1-No Parque Estadual de Canudos, que também implantamos e administrado pela UNEB, temos aí o bioma caatinga precisando ser preservado e repovoado (algumas plantas estão em processo de extinção). É Uma zona de combate da Guerra, com 1.321 hectares,, está com seus sítios históricos e arqueológicos demarcados (Alto/Morro da Favela; Vale da Morte, Hospital de Sangue da primeira e segunda Colunas; Fazenda Velha, Alto do Mário, Degola, etc).
2-O Açude Cocorobó, foi iniciado na década de 40 e inaugurado em 1987. Tem uma capacidade de acumulação de água de 293 milhões de metros cúbicos de agua, poderia abastecer mais de 2o municípios da região - hoje abastece Ós, a cidade e a zona rural é abastecida por carro pipa (seguindo o clientelismo etc). Produz poucos peixes e poderia produzir 800 a 1 mil toneladas de peixes por ano, ou seja 3 ton por dia - o que dinamizaria a região.O Perímetro irrigado Vaza Barris (PIVB) poderia irrigar 5 mil hectares, hoje irriga menos de 1 mil utilizando culturas muito demandadoras. Hoje, há DESPERDÍCIO E O SISTEMA DE IRRIGAÇÃO É INADEQUADO. Existem áreas já salinizadas etc. etc. A minha pesquisa anterior constatou que os agricultores auferiam uma renda inferior a Hum salário mínimo, enquanto agricultores alí perto, em Juazeiro estão se articulando com mercados exigentes da Europa e EUA, etc, etc.
Há uma réplica da Estátua do Conselheiro, de Mário Cravo, que está no Memorial Antonio Conselheiro da Uneb em Canudos. Ali também tem um museu, uma pequena biblioteca, e um jardim com plantas citadas em Os Sertões - esse jardim tem o nome Praça João de Regis (filho de Conselheirista. Falecido recentemente e um dos melhores depoentes sobre a Guerra).
Sem perda de tempo, aproveitemos este momento excepcional do Brasil
E parece que no Brasil é tudo assim. As ações políticas (que deveriam ser) sérias viram carnaval, festa. É a forma com que o brasileiro encontra de lutar por seus direitos. Não acho que seja ruim ou errado, mesmo porque quem sou eu para falar alguma coisa contra alguma coisa.
Mas, sim, estou falando da Parada GLBT pelo Orgulho Gay. Em primeiro lugar, a segmentação é realmente importante para que se lute por questões sociais importantes. Não acho que o problema esteja no Movimento Gay, Movimento Negro e tantos movimentos e ONGs que pipocaram por aí. O que discuto é se a Parada Gay realmente é realizada da maneira como deveria. Se há realmente engajamento político ou se tudo não passa de uma grande festa.
A começar pelas empresas que patrocinam as Paradas. Geralmente tratam-se de sites de encontros, saunas gays (que todos sabem porque existem). E vira um grande carnaval, uma grande micareta gay com muitas cores e muita gente achando legal e vendo como a galera gay é divertida. E a parada vai perdendo seu caráter político pra se tornar um evento festivo como se fosse feriado de Nossa Senhora Aparecida. E sendo assim não sei até que ponto é realmente forte.
Há ainda o que eu chamo de "seguidores". Seguidores são aqueles que fazem parte de uma galera que viaja atrás das paradas. Cumprem a agenda. Em Junho estarão em São Paulo, em Agosto estarão em Belo Horizonte e em Outubro estarão no Rio de Janeiro. O que procuram os seguidores? Espaço para se expressar. Considero esta ação como atitude política, se fosse realizada da maneira correta.
Festa por festa já temos demais. Carnaval o ano inteiro na rua, no sambódromo e na política. Há sempre uma deputada dançando porque seus colegas corruptos foram absolvidos, há sempre o carnaval das lutas políticas pela CPMF, há também o Carnaval da impunidade (já falei disso, né?).
Nosso bloco continua indo às ruas, mas dessa vez não é mais metafórico, é real. É realmente um bloco de carnaval. E confesso, isso não me agrada. As lutas são legítimas, mas não acho que gay é uma raça diferente. Acho que a forma de lutar está equivocada, mas também não sei dizer (Ainda) qual seria a melhor forma.
Preparem suas idéias e participe da Retrospectiva 2007 do blog. Dezembro está chegando.
E a trilha sonora 2007 também está em preparação.
Episódio de hoje:O BLOCO NA RUA
O Riocenacontemporânea me trouxe grandes coisas. Uma delas foi o espetáculo Os Sertões do Zé Celso Martinez, verdadeiro ritual teatral, ópera brasileira de 30 horas, divididas em cinco espetáculos de seis horas de duração em média.
Zé Celso e seus atores colocam ali tudo o que pode pra falar de teatro, arte, política, Brasil...E sua luta é incansável e embarquei junto nesta história. E cada vez mais sinto que viver sem arte é sobreviver, não viver. Além disso, o espetáculo O Quarto Interior do grupo português Circolando também me trouxe uma grata surpresa.
Mas é ainda mais forte e cada vez mais forte a minha ligação com o que o Brasil tem a oferecer, com o que faz parte da nossa cultura tão miscigenada e rica. Já sentia isso antes e reavivou isso em mim depois dessa viagem à Porto Alegre em que vi de perto uma festa folclórica tão forte como a Farroupilha e no Zé Celso revi a questão da cultura nordestina e sertaneja que também sempre foi forte pra mim. Então cheguei à conclusão que não é a cultura nordestina ou a cultura gaúcha que me dão curiosidade, é a cultura brasileira. Entender, explicar? Não sei se é essa a minha função como artista (e artista tem realmente uma função específica?, ainda não sei). Sei que como artista vejo que preciso pensar mais na cultura brasileira pra tentar transmitir à população o que é isso. Resgatar, reiterar, manter.
Tá chegando a hora de eu colocar o meu bloco na rua. Cada vez mais próxima esta hora. E sinto, com satisfação, que não vivi tudo o que vivi e vi inutilmente. Tudo me trouxe para onde estou e cada vez mais começo a definir - para este momento - o que quero como artista.
Texto do dia
Nós, brasileiros, somos um povo em ser, impedido de sê-lo. Um povo mestiço na carne e no espírito, já que aqui a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Nela fomos feitos e ainda continuamos nos fazendo. Essa massa de nativos viveu por séculos sem consciência de si... Assim foi até se definir como uma nova identidade étnico-nacional, a de brasileiros...
Escrever não é fácil. Produzir não é fácil. Colocar idéias em prática também não é fácil. Nada disso é fácil porque tem sempre algo que pode ser feito melhor e melhor e melhor. Sempre tive o impulso de fazer as coisas. Algumas coloquei em prática, outras não e confesso que só me arrependo das que não coloquei em prática.
Primeiro porque é necessário fazer e só erra quem faz. Segundo porque a vida passa muito rápido enquanto ficamos apenas planejando. Acho que foi John Lennon quem disse que vida é aquilo que passa enquanto você faz planos. Então prefiro que os planos venham, mas que a concretização deles também.
Dar vida real às idéias é um projeto que estou buscando realizar. Na verdade, se fosse fácil qualquer um faria e não é assim que funciona. Fico pra morrer quando alguém acha que ser artista é ser louco, é ser pirado, desligado...Fico pra morrer quando qualquer um acha que pode ser artista. Eu, por vezes, fico paralisado, porque me acho incapaz de fazer algo bom. Um amigo, há muito tempo atrás, disse que o medo me paralisa. E ele não mentiu. Acho que estou mudando isso só agora e confesso que, embora digam o contrário, já me acho velho. E pra mim não há coisa pior do que alguém que quer viver no presente, o passado que não aproveitou.
Mas também não vou me lamentar. Vou viver o que tiver que viver. Os amores que tiver pra viver. Me apaixonar como sempre fiz, sofrer como às vezes aconteceu (ou quase sempre), mas viver..Viver.... E não é disso que estamos falando o tempo todo?
Texto do dia
Viver, Amar, Valeu
Gonzaguinha
Quando a atitude de viver
É uma extensão do coração
É muito mais que um prazer
É toda carga da emoção
Que era o encontro com o sonho
Que só pintava no horizonte
E, de repente, diz presente
Sorri e beija a nossa fronte
E abraça e arrebenta a gente
É bom dizer viver, valeu
Ah! já não é nem mais alegria
Já não é nem felicidade
É tudo aquilo num sol riso
É tudo aquilo que é preciso
É tudo aquilo paraíso
Não há palavra que explique
É só dizer viver, valeu
Ah! eu me ofereço esse momento
Que não tem paga e nem tem preço
Essa magia eu reconheço
Aqui está a minha sorte
Me descobrir tão fraco e forte
Me descobrir tão sal e doce
E o que era amargo acabou-se
É bom dizer viver, valeu
É bom dizer amar, valeu.
Amar, valeu.
Imagem do dia
. Foto de Karina Bertoncini Eu quero vida e vida em abundância
E foi assim que se deu. Depois de 14 anos voltei à terra querida dos Pampas. E só posso dizer que foi uma das melhores experiências que tive.
Muita chuva, frio, mas também muito chimarrão.
Quando do avião pude ver as luzes da cidade fiquei completamente emocionado. No ouvido, a Nona de Beethoven. E o avião aterrando.
Na manhã seguinte, mesmo com muita chuva, fui ao desfile da Farroupilha. Lá estava eu balançando bandeirinha e aplaudindo. Obviamente que os amigos gaúchos que fiz lá ficaram sem entender muito bem meu entusiasmo, mas tudo bem, eles vêem isso todo ano. Mas essa força tradicionalista do sul é algo que me atrai.
Fiz amigos, vi espetáculos e tive a felicidade de conhecer entre outras pessoas, como as meninas que me hospedaram, duas pessoas que tornaram minha viagem muito especial, delicada. A uma delas ofereço a música que está aí agora ("Um Violeiro Toca"), um hit meio nada a ver, mas que se tornou uma espécie de soundtrack em meio à poesia de Garcia Lorca. E a outra foi a prima do coração, mãe de uma das meninas que me hospedou. Depois de dois anos, finalmente nos conhecemos. Senti nela todo o carinho e consideração que alguém pode receber e isso foi simplesmente fantástico.
Veio um tanto de coisa da minha infância. O minuano nos meus cabelos, o chimarrão na porta do vizinho, O pôr do sol no terraço do edifício Taperinha, onde morei em Santa Maria. Veio o primeiro amor pela Márcia Ott e com ele minha primeira desilusão. Mas foi a primeira paixão e de me apaixonar eu nunca me arrependo.
Quando o avião decolou hoje e vi da janelinha e Guaíba tão pequenininho lá embaixo, meu coração ficou apertado. Me lembrei da prima com o sorriso no rosto, parada na porta, me vendo descer as escadas. Olhei pra trás e ainda pude trocar dois beijinhos no ar.
Lembrei de um último beijo, também jogado no ar na virada de uma esquina. E não sai da minha memória o rosto gravado..Ah! esta mania de me apaixonar.
E se somos todos nuvens passageiras que com o vento se vai, e realmente somos, algo fica. Algo sempre fica.
Texto do dia
O POETA PEDE AO SEU AMOR
QUE LHE ESCREVA
F. Garcia Lorca
Amor de minhas entranhas, morte viva,
em vão espero tua palavra escrita
e penso, com a flor que se murcha,
que se vivo sem mim quero perder-te.
O ar é imortal. A pedra inerte
nem conhece a sombra nem a evita.
Coração interior não necessita
o mel gelado que a lua verte.
Porém eu te sofri. Rasguei-me as veias,
tigre e pomba, sobre tua cintura
em duelo de kordiscos e açucenas.
Enche, pois, de palavras minha loucura
ou deixa-me viver em minha serena
noite da alma para sempre escura.
Imagem do dia
Deu pra ti baixo astral. (imagem do viaduto da Avenida Borges de Medeiros, centro de POA).
Viva Cazuza é vítima de intimidação de técnico do Fundo Nacional de Saúde.
“Hoje eu vim aqui para ferrar vocês” foi assim que Rosilda Albuquerque chegou a Viva Cazuza, instituição filantrópica destinada a dar assistência a portadores do vírus da Aids, para fazer uma verificação de um convênio da instituição com o Fundo Nacional de Saúde além de intimidar funcionários.
Sobrevivemos dos direitos autorais de Cazuza, doações, eventos beneficentes e eventuais convênios públicos, diz Lucinha Araújo. Coloco o dinheiro do meu filho nesse trabalho há 16 anos. Fico muito feliz quando recebemos representantes de orgãos públicos para verificar nosso trabalho. Acho que isso tem mesmo que ser feito. Se todos dessem satisfação do que fazem não estávamos nessa situação de desmando que o país se encontra. Nunca vi tanta roubalheira!
Agora queria saber que tipo de profissional é esse que chega num local com uma frase dessas. O que ela queria ganhar com isso?
Ofício enviado pela Sociedade Viva Cazuza para o FNS
Rio de Janeiro, 01 de março de 2007
Manoel César Nobre dos Santos
Chefe da Divisão de Convênios FNS
Rua México, 128/10.º Andar – Rio – RJ
20031-142
Prezado Sr. Manoel,
Recebemos no dia 27 de fevereiro de 2007 a visita das técnicas Rosilda Albuquerque e Claudia Reis da Silva com objetivo de acompanhamento da execução físico-financeira dos convênios 1379/2004 e 2622/2005, que estava agendada para os dias 01/03/2007 e 02/03/2007, respectivamente.
No dia 28 de fevereiro de 2008 a Sra. Rosilda Albuquerque ao chegar na instituição disse a uma de nossas funcionárias “hoje eu estou aqui para ferrar vocês”. Mais adiante questionou a Sra. Maria Beatriz Costa Casado, supervisora da instituição, quem era a pessoa responsável pelos cardápios, ao que a Sra. Maria Beatriz respondeu informando que ela era responsável. A Sra. Rosilda perguntou se ela era nutricionista ao que a Sra. Beatriz respondeu que não. De maneira intimidadora e deselegante a Sra. Rosilda disse que ela poderia ser presa e que estava roubando emprego de outra pessoa e perguntou se a Vigilância Sanitária nunca tinha visitado a instituição.
Mais tarde, ao verificar as notas fiscais relativas à compra de medicamentos do convênio 1379/2004 a Sra. Rosilda solicitou a nossa gerente, Sra. Christina Moreira da Costa, os prontuários médicos das crianças. A Sra. Christina Moreira consultou, por telefone, a Conselheira da Viva Cazuza, Dra. Betina Durovni, que também é Coordenadora do Programa de Doenças Infecciosas da Secretaria Municipal de Saúde, sobre o procedimento. Como a Dra. Betina Durovni tivesse informado que prontuários médicos são sigilosos e só podem ser fornecidos a outros médicos por ordem judicial, a Sra. Christina Moreira disse que não poderia fornecer os prontuários. Mais uma vez a Sra. Rosilda questionou as compras, feitas por cotação de preços, ao que a Sra. Christina Moreira retrucou que ela se baseava na Lei 8666 art. 24, Inciso II, que preconiza a dispensa licitatória para a aquisição de produtos inferiores a R$8.000,00 (oito mil reais), ao que a Sra. Rosilda retrucou dizendo que “isso não valia”.
No dia primeiro de março recebemos a visita da Vigilância Sanitária proveniente de denúncia que aprovou todos os procedimentos utilizados na manipulação de alimentos nos fornecendo um laudo de que a denúncia era improcedente (laudo anexo).
Gostaríamos de saber o que a Sra. Rosilda Albuquerque pretende ou pretendia ganhar com tal falta de profissionalismo e ética? Como instituição filantrópica, recebemos técnicos para verificação de nossas atividades não só do FNS, mas do Juizado de Menores, Conselho Tutelar, Conselho Municipal de Saúde, INSS entre outros e nunca sofremos constrangimento, intimidação e falta de educação como os feitos por esta técnica.
Atenciosamente,
Maria Lúcia da Silva Araújo
Presidente
c.c José Menezes Neto
Diretor Executivo FNS
Deputado Miro Teixeira
Dra. Mariangela Simão
Coord. Programa Nacional de DST/Aids
Dr. Leonardo Cardoso de Freitas
Procuradoria da República do Estado do Rio de Janeiro
Ministério Público Federal
Sim, se isso for um defeito, que seja. Mas exijo muito das pessoas. Exijo muito de mim mesmo, mas é isso. Juro que tento relaxar, mas sempre que tento relaxar, vem algo pra me dizer que eu devia ter sido exigente. Não consigo relaxar e isso é um problema. To sempre querendo que as pessoas me tratem como eu devo ser tratado e não de qualquer jeito.
Se eu não quero te ver, se eu não quero falar com vocë, provavelmente te direi. Se você me magoar é porque não me disse a verdade e se me magoar, esqueça. Já era. Eu só me torno amigo das pessoas que respeito, admiro e confio. Se eu não confiar em vocë, esqueça. Vá procurar sua turma, vá pentear macacos.
Se você está ficando, namorando, trepando comigo, eu exijo o mínimo. Que você me diga o que quer de mim ou se não quer nada. Não venha com sinais de fumaça. Só me confunde e me irrita.
Eu acredito que quando as coisas são ditas, tudo fica melhor, mais claro, mais verdadeiro. Não minta pra mim. Não digo das mentiras tolas que dizemos no dia-a-dia, falo das mentiras sérias, dessas que significam confiar ou não confiar. Não perca a minha confiança, o meu carinho e o meu respeito. Uma vez perdidos, você não os recuperará nunca mais.
São tantas coisas que vão acontecendo que às vezes perco o controle e fico sem saber o que escrever.
Um mês! Puxa vida! Um mês tanta coisa pode acontecer. É tanta água por debaixo do rio (ou será do Rio)`?
Fato é que a cada dia me vejo mais apaixonado, embora às vezes me sinta desanimado também, E quem não? Casa nova, gastos, gastos, gastos, cama que não chega, coração que tá pedindo pra explodir um diamante revelando as sete cores dos sete mil amores. E amor é essa coisa que a gente sempre tem pra dar pra alguém.
Fora o amor que ainda não veio da maneira que eu gostaria, mas lembrando a máxima do Cazuza "quem não sabe amar fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos", então resolvi parar de esperar alguém que caiba nos meus sonhos porque sempre tenho idéia diferente do que realmente quero com alguém.
Passando pra outra estação, acho que tô num bom momento. Acabei de escrever uma peça e acho que vou começar a ensaiar, tenho projetos e ter projetos é um primeiro passo pra não enlouquecer, minha vó sempre dizia "cabeça vazia, oficina do diabo", realizarei um velho desejo, o de visitar Porto Alegre. A primeira vez que vou viajar pra tão longe sozinho. Bom pra pensar, divertir, relaxar...
Mas continuo com aquela meta que disse antes. Estar sozinho não significa que quero continuar sozinho, significa apenas que estou sozinho.
Imagem do dia
Texto do dia:
Carente Profissional
(Frejat/Cazuza)
Tudo azul
No céu desbotado
E alma lavada
Sem ter onde secar
Eu corro, eu berro
Nem dopante me dopa
A vida me endoida
Eu mereço um lugar ao sol
Mereço ganhar pra ser
Carente profissional
Carente...
Se eu vou pra casa
Vai faltando um pedaço
Se eu fico, eu venço
Eu ganho pelo cansaço
Dois olhos verdes
Da cor da fumaça
E o veneno da raça
Eu mereço um lugar ao sol
Mereço ganhar pra ser
Carente profissional
Carente...
Levando em frente
Um coração dependente
Viciado em amar errado
Crente que o que ele sente
É sagrado
E é tudo piada
E é tudo piada
Eu mereço um lugar ao sol
Mereço ganhar pra ser
Carente profissional
Carente...
um à parte O que posso eu fazer se te amo desde a primeira vez que te vi?
Episódio de hoje:GAROTO DO LEBLON ou INICIANDO UMA NOVA ETAPA
Não gosto de usar o blog para falar de coisas particulares. Não digo pessoais, porque tudo que escrevemos é pessoal mesmo. Mas particulares no sentido de dizer o que estou fazendo, para onde estou indo. Acho idiota aquelas coisas de MSN "To na Praia" ou "Meu namoro acabou". Ridículas pra falar a verdade.
Mas como uso o Forget the Rules (este é o nome original do meu blog, para quem não sabe) para dividir o que estou vivendo, sentindo e pensando, acho importante dividir isto também. Um ano e um mês depois que vim embora pro Rio, ainda naquelas questões de será que fiz a coisa certa? O que será de mim? Inicio uma nova etapa a partir de hoje. Meu primeiro apartamento no Rio de Janeiro. ONde morei até agora? Na casa de amigos. Costumo brincar que sou como Blanche de Bois aqui no Rio Vivo dependendo da bondade de estranhos. E foi realmente assim.
Desde que cheguei ao Rio já morei na casa de um amigo, depois fui alugar um quarto por indicação de outro amigo, aí fui pra outra amiga e mais uma amiga e agora...ufa! Um apartamento que dividirei com uma amiga, mas será nosso. Poderei dizer que é a minha casa e não a casa do meu amigo que me hospedou num quarto. Ponto? Leblon. Quer coisa melhor? Pra quem me conhece sabe que não. Ali no Baixo Leblon, pertinho da Livraria onde participo dos recitais de poesia, pertinho da praia que freqüento, perto de onde trabalho...Perto dos lugares que o Cazuza freqüentava.
Enfim, essas coisas todas que não são em absoluto para fazer inveja, mas para partilhar minha alegria.
E se temos a Garota de Ipanema, agora o mineirinho está se tornando cada vez mais o Garoto do Leblon.
Imagem do dia Imagem do Morro Dois Irmaos no Leblon
abraça o meu abraço e abre aspas e couraça e casaca e roupa até a polpa o nervo a voz antes da boca aonde a mesma brasa ilesa siamesa dorme acesa embaixo dágua abraça o breu do meu abraço e sua o seu no meu suor na nossa massa mancha que absorve engole goma o seio soma o seu no meio meu aberto peito perto alcança o céu no vôo cego que amalgama à nossa sombra a escuridão que orbita em volta cruza a curva de um contorno que devolve ao mesmo a sua carne pele em forma líquida abraçada nesse agora que me abraça e que me abraça e que me abraça e que me abraça.
Foi um final de semana produtivo. Artisticamente e intelectualmente produtivo. Começando pela exposição Instântaneos de Felicidade no CCBB que se encerrou neste final de semana. Nesta mostra fotos de diversos artistas como Marc Riboud, Robert Doisneau, Pierre Verger (não à toa a maioria franceses) em suas imagens captadas da vida comum em momentos instântaneos de bom humor, momentos que se desfacelaram com o passar de uma faísca, um sorriso, uma conversa, uma brincadeira de amigos...
Num outro momento, fui assistir à montagem de formatura de um amigo e me surpreendi. Um espetáculo simples, mas bem dirigido, divertido. Não é o tipo de teatro que eu mais admiro, mas o resultado ficou bom, sem ares pretensiosos como muitas montagens de iniciantes que eu já tenha visto.
Na sexta, Lapa. E uma conversa deliciosa com um jovem escritor gaúcho que escreveu-me esta dedicatória em seu primeiro livro de contos: Para o meu especial leitor afoito. A verdade é uma cadeira para se sentar. E foi tudo surpresa e tudo delicioso porque falamos sobre a arte que queremos. E assim também conversei com uma atriz que participou desta montagem a que me referi. E com ambos a conversa foi: queremos o simples.
Vejo os artistas reclamando e reclamando da falta de verba para montagens que gastam em média R$ 450 mil por mês e acho, chego a achar, imoral. Obviamente nosso país é rico, muito rico, muito dinheiro poderia ser melhor empregado mas não é por causa da corrupção e da escrotice de nossos governantes. Por outro lado, não consigo entender porque um espetáculo teatral tem que custar tanto.
Para mim, arte tem que comunicar e para comunicar eu não preciso de uma parafernália sem fim. Prezo pela simplicidade (leia-se simplicidade e não simploriedade - não acredito em teatro simplório, até para se atingir a simplicidade é necessário muito trabalho). Aliás, acredito que a simplicidade envolva tanta complexidade que atingi-la não é fácil.
Existe uma companhia mineira chamada Cia. Clara do diretor Anderson Aníbal que possui em seu repertório espetáculos simples mas de uma verdade que sempre me emocionam. Pra mim, a arte tem que prescindir do amor, do coração. Quando ela vem daí, já tem meio caminho andado.
Não falo, porém, que espetáculos grandiosos como Império de Miguel Falabella não sejam necessários ou sejam ultrapassados. Não. Inclusive, assisti três vezes a ele. Apenas digo que precisamos repensar, como artistas, como deve ser a arte que fazemos.
Episódio de hoje:O SILÊNCIO QUE FALA E O SILÊNCIO ENSURDECEDOR
Minha relação com o silêncio é de longa data. Eu sempre senti prazer com o silêncio. Lembro-me de que quando era criança adorava quando minha casa à tarde ficava silenciosa. Acho que pra cada coisa tem o seu tempo.
Eu acordava com o barulho de rádio e a casa sendo varrida, a panela de pressão apitando, essas coisas todas. Mas aí, logo depois do almoço, vinha aquele silêncio de sesta. Era bom ouvir só o barulhinho do motor da geladeira.
Ainda hoje pra mim o silêncio é necessário e sei que as pessoas não entendem. Principalmente quem se envolve afetivamente comigo. Acho que o silêncio diz tanta coisa que quando me sinto obrigado a dizer algo só por dizer é como se um caminhão me atropelasse e aí falarei de coisas rasas. Me diga, por que dizer algo se não há nada para ser dito? Para suprir ansiedades? Para interagir. E interação lá tem a ver só com palavras?
Gosto de ver o mundo ao meu redor. Gosto de ver como as pessoas sorriem, como elas dançam, como elas tocam em quem elas amam. E meu olhar faz parte deste cenário. Ali, com meu olhar, estou dizendo tantas coisas que o verbo não conseguiria exprimir. Para alguns, o silêncio é ensurdecedor. Me ensurdece é o silêncio magoado, o silêncio triste, o silêncio amargurado e rancoroso. Os outros não.
Às vezes me calo também por falta de coragem de dizer. É que quando não falo, eu quero dizer e não consigo, então eu me calo. Eu devo ser realmente muito teimoso e muito chato também.
É que, tolinho, quero dizer que quando não interajo é porque estou olhando maravilhado pra você e pro seu jeitinho de falar e pro seu jeitinho de andar e pra essa coisinha bonita que é você olhando as pessoas.
Tenho dificuldade com despedidas. Mesmo as despedidas de visitas. Eu fico com vontade de ir ficando, ficando, ficando...se deixar eu durmo na sala.
Mas aquelas despedidas em que alguém fica pra trás e sabe-se lá quando a veremos de novo...Isso me mata.
Toda vez que vou à casa dos meus pais, sempre que venho embora eu tenho que chorar. E moro longe deles já quase 10 anos.
Vivi duas situações hoje.
Conheci alguém há dois dias, me envolvi com ela, mas foi embora hoje. Não pude me despedir direito, não deu pra dizer como foi legal ter conhecido e aí pronto. Foi motivo pra eu ficar estranho o dia inteiro.
Tenho um amigo que trabalhava comigo desde que cheguei ao Rio e foi ele quem me socorreu quando eu estava sem lugar pra ficar, logo no início. Onde ele morava tinha espaço pra mais um e lá fui eu. Confesso que me divertia com ele. Ríamos muito, contávamos histórias, era uma delícia. Há quatro meses que moramos em lugares diferentes porque precisamos sair de lá.
Hoje ele chegou de férias e anunciou que estava voltando pra São Paulo. Nos despedimos e me deu um aperto no coração quando ele sumiu pela porta. Antes, eu o agradeci por tudo, ele deu um sorriso e disse: "Ê Candinho, lembra nós dois no Tijucão?" Caramba, tive vontade de chorar ali, mas me segurei. E nem sei porque me segurei. Juntou isso, mas a outra despedida estranha do dia e foi motivo pra que eu pensasse em como tenho dificuldade de me desprender das coisass.
Pensei num namoro antigo, de muitos anos atrás mesmo e de como ainda está mal resolvido no meu coração. Mesmo depois de tanto tempo? Será que eu ainda amo? Que tipo de conseqüências pode estar fazendo na minha vida?
Não sei...Sei que eu queria ter reunido meu amigo que foi embora, a persona da qual não pude me despedir e todo mundo que eu amo numa grande mesa, com vinho e comida à vontade para dançarmos e celebrarmos a maravilha que é viver e amar.
Segunda-feira é mais difícil porque é sempre a tentativa do começo de vida nova. Façamos cada domingo de noite um reveillon modesto, pois se meia noite de domingo não é começo de Ano Novo é começo de semana nova, o que significa fazer planos e fabricar sonhos.
Meus planos se resumem, para esta semana nova, em arrumar finalmente meus papéis, já que a governanta eu não vou ter mesmo.
Quanto aos sonhos, desculpem, guardo-os para mim, como vocês guardam, com o olhar pensativo, de quem tem direito, os próprios."
Episódio de hoje:SER OU NÃO SER "SAC", EIS A QUESTÃO
Tenho uma certa dificuldade de lidar com pessoas que vivem reclamando da vida. Acho de extremo mau-gosto e deselegância ficar falando, falando, falando e enchendo os ouvidos dos pobres ouvintes de reclamações e mazelas da vida.
Algumas pessoas têm isso como hábito e nem percebem que quanto mais reclamam, encontrarão mais motivos para reclamar. Eu tenho feito o exercício de não reclamar. Algumas coisas acontecem e o que tento fazer é simplesmente resolvê-las ou esperar o momento certo para que se resolvam, afinal só não há solução para a morte.
Prefiro os fudidos otimistas do que os ricos que só sabem ver o lado ruim das coisas e das pessoas. Não quero ver o lado ruim. Quero ver o lado bom e bonito. Sempre fui assim. Enquanto algumas pessoas não acreditam no amor, eu continuo acreditando. Enquanto algumas dizem que o país não tem solução, eu continuo achando que tem sim. Minha vida não está do jeito que eu quero, mas eu acredito que ela AINDA não está do jeito que quero. Penso sempre nas conquistas que já fiz e não no que ainda não conquistei. Porque há sempre algo para se conquistar, há sempre algo para se resolver e ponto.
Costumo dizer que não sou SAC, sim, aquela sigla que significa Serviço de Atendimento ao Consumidor, pra ficar escutando reclamações que não vão levar a lugar algum. Hoje peguei um táxi onde o motorista me alugou durante 20 minutos falando sobre o quanto o governo rouba, o quanto o prefeito é ruim, o quanto o governador, bla bla bla... saí do táxi com a impressão de que era ele quem estava me devendo dinheiro da corrida e não eu. Que político rouba eu já sei, que o prefeito é ruim só o carioca parece não saber porque já o elegeu mais de duas vezes. Então não me venha encher a paciência.
Quer me ganhar? Então não me fale de notícia ruim ou de problemas que eu já sei porque leio os jornais. Fale-me de algo bonito que você escutou ou viu ou ficou sabendo. Discussões sem sentido me entediam.
Texto do dia
Reclamar... ou agradecer...
Rubia A. Dantés
Muitas vezes nos deparamos com coisas que não conseguimos explicar e não entendemos porque estamos passando por aquilo... então temos a tendência a reclamar... e podemos correr o risco de ficar muito tempo só reclamando...
Uma coisa é certa... Ninguém passa pelo que não tem que passar e sempre em todas as situações existe algo a ser aprendido...
O ato de reclamar geralmente tem um efeito de aparentemente suavizar a situação por um tempo... mas aquilo que não resolvemos sempre volta para ser resolvido e para que tiremos o necessário aprendizado...
Se eu gasto a minha energia reclamando, eu fico sem energia para agir... e ao receber um retorno das pessoas... tipo “coitadinha... que pena”, isso dá um certo conforto e traz o perigo de me acostumar à auto-piedade... e virar um eterno "coitadinho de mim"... Algo que nos impede de alcançar o Amor e Felicidade.
É claro que quando a coisa fica muito difícil, sempre é bom ter um ombro amigo para dividir nossa dor... mas que isso seja feito em um contexto de buscar soluções e não como uma forma de conseguirmos somente atenção e um falso amor...
Quem não conhece pessoas que a cada oportunidade logo vêm com uma montanha de queixas que só tendem a aumentar... e nenhuma disposição de buscar aprender com as situações, e resolver os problemas... Parece que eles só aumentam cada vez mais...
Essa é uma forma de auto-sabotagem... quando alimentamos e criamos cada vez mais situações para que sintam pena da gente... vamos inconscientemente criando cada vez mais problemas para ter do que reclamar...
Sempre que me pego sentindo pena de mim mesma eu busco reagir e me lembrar que se eu perco o meu tempo e energia reclamando, eu nunca vou entrar em contato com meu poder pessoal que me dá força e energia para evoluir e a ter boa sorte...
Acredite que você é um co-criador da sua realidade e que reclamar só cria mais e mais motivos pra que você reclame...
Comece a agradecer ao Universo... Mesmo que aparentemente você não sinta nenhuma vontade de agradecer porque acha que a sua vida está uma droga... sempre vai encontrar motivos... agradeça pela respiração... e acompanhe um pouco esse ar que entra e que sai... sinta os caminhos que ele percorre e agradeça ao seu corpo... agradeça pela vida e pela oportunidade única que você está tendo de evoluir aqui nesse tempo mágico que estamos passando no planeta...
Agradeça ao Sol... à Lua... à chuva... agradeça a você mesmo por ter força de trocar a sua realidade com uma simples decisão...
Sempre vamos encontrar muitos motivos para agradecer... e essa energia da gratidão é muito poderosa e logo você vai criar na sua realidade mais e mais coisas pelas quais vai sentir gratidão...
É só uma questão de escolha... você vai se ligar ao que tem a reclamar ou ao que tem a agradecer... Mas os resultados dessa escolha fazem uma diferença fundamental entre levar a vida ligado ao sofrimento ou à felicidade...
Escolha a felicidade... ela é muito mais leve e é o melhor para todos... Fonte: do site www.somostodosum.ig.com.br
Imagem do dia
SOL (ta-te) de Raphael, o Pensativo Do site www.olhares.com
Completando um ano de Rio de Janeiro, declamei hoje este poema do Antônio Cícero para comemorar
Francisca
Antonio Cicero
Francisca veio lá do norte, de onde
também vieram meus avós e pais
talvez em busca de novos horizontes
no tempo em que eu não era nem nascida
Mas se eu nasci há tanto tempo já
Que meu passado está perdido em brumas
rasteiras e fumaça, o que dizer
do dela?
Do dela tão mais distante?
Francisca veio para o sul há tempos
e já chegou sonhando em retornar
e cultivar em meio a certas brenhas
algum roçado junto à sua mãe
Ela era quase ainda uma criança
e lá ficava o mundo de verdade:
o sol a chuva a noite a festa a morte
a vida
a aguardá-la, ainda mais distante
Parnaíba, Ipiranga, Rio Longá, Campo Maior…
Um certo norte está onde ela está,
em frente à praia de Copacabana,
onde ela faz cuscuz, beiju ou peta
e seu sotaque é cada vez mais forte
E ela ralha com o feirante esperto
e tem conversas com a mãe ausente
e o sabiá pousado no seu dedo
que aponta
algum lugar tão mais distante
Entre o nordeste que deixou na infância
e o sul que nunca pareceu real
a Francisca tem saudade de uns lugares
que passam a existir quando ela os pinta:
São mares turquesados e espumantes
em frente a uns casarões abandonados
que, não sei bem porque, nos desamparam
no meio
de algum lugar tão distante.
De Paraty ao Rio, de Brasília a Belo Horizonte. Desde que me entendo por gente a poesia está em minha vida.
Lembro-me de quando tinha sete anos, teve um almoço na minha casa no dia das mães. Meus pais convidaram alguns amigos e lá foram todos. Na hora do almoço eu bem peguei um livro daquela coleção antiga "O Mundo da Criança" e ia ler pra todo mundo um poema que dizia "Minha mamãezinha querida...". Minha irmã me pegou no flagra. Tomou o livro da minha mão e lá fiquei com a cara emburrada o almoço inteiro. Não sei se o que eu queria era me mostrar, ler a poesia ou um pouco de cada coisa.
Essa coleção, antiga em minha casa, possui este volume 1 que se chama "Poemas e Quadras". Leio desde quando aprendi a ler. E foi esta coleção, junto com todas as coleções de livros que meus pais compravam que me estimularam a leitura e a escrita. O primeiro contato que tive com a escrita foram as redações da escola. Sempre gostei de escrever, mesmo quando não me pediam. Eu escrevia minhas historinhas, escrevia minhas novelinhas e aí comecei a escrever letras de canções.
Lembro-me que ainda aos sete anos, escrevi uma musiquinha que era mais ou menos: "Pula, Corre e Salta...Hoje é dia de Pular...Fico feliz de ver todo mundo cantando, cantando alegre... Pula, Corre e Salta hoje é dia de cantar...quero ver todo mundo cantando, cantando...Eu quero ver você pulando...correndo...saltando...alegre!" Foi meu primeiro poema.
E não parei mais...
Seja escrevendo poemas, histórias, canções...
E foi esta semana que me lembrei dessa história do dia das mães. Engraçado. Toda terça-feira acontece no Leblon o Corujão de Poesia, na livraria Letras e Expressões. Esta última terça-feira foi especial. Foi recheada com muito amor. Eu senti esse amor por toda parte ali. E eu nem estou apaixonado. Mas eu vi ali as minhas Ingrid e Flora, duas flautistas lindas, vi o João Luiz - um mestre -, vi tanta gente que eu conheci ali, vi pessoas que eu levei pela primeira vez e me lembrei que semana que vem completa um ano que estou no Rio e é lá que quero comemorar. Com poesia. Não há outra forma de comemorar minha mudança, tão difícil, do que com poesia.
O João Luiz sempre diz que devemos agradecer. E eu agradeço: a ele, à toda aquela gente e à poesia - a grande responsável por tudo isso.
Texto do dia
O fantasma e a canção
Castro Alves
— Quem bate? — "A noite é sombria!"
— Quem bate? — "É rijo o tufão! ...
Não ouvis? a ventania
Ladra à lua como um cão."
— Quem bate? — "0 nome qu'importa?
Chamo-me dor... abre a porta!
Chamo-me frio... abre o lar!
Dá-me pão... chamo-me fome!
Necessidade é o meu nome!"
— Mendigo! podes passar!
"Mulher, se eu falar, prometes
A porta abrir-me?" — Talvez.
— "Olha... Nas cãs deste velho
Verás fanados lauréis.
Há no meu crânio enrugado
O fundo sulco traçado
Pela c'roa imperial.
Foragido, errante espectro,
Meu cajado — já foi cetro!
Meus trapos — manto real!"
— Senhor, minha casa é pobre...
Ide bater a um solar!
— "De lá venho... O Rei-fantasma
Baniram do próprio lar.
Nas largas escadarias,
Nas vetustas galerias,
Os pajens e as cortesãs
Cantavam! ... Reinava a orgia! ...
Festa! Festa! E ninguém via
O Rei coberto de cãs!"
— Fantasmas! Aos grandes, que tombam,
É palácio o mausoléu!
— "Silêncio! De longe eu venho...
Também meu túmulo morreu.
O séc’lo — traça que medra
Nos livros feitos de pedra —
Rói o mármore, cruel.
O tempo — Átila terrível
Quebra co'a pata invisível
Sarcófago e capitel.
"Desgraça então para o espectro,
Quer seja Homero ou Solon,
Se, medindo a treva imensa
Vai bater ao Panteon...
o motim — Nero profano —
No ventre da cova insano
Mergulha os dedos cruéis.
Da guerra nos paroxismos
Se abismam mesmo os abismos
E o Morto morre outra vez!
"Então, nas sombras infindas,
S'esbarram em confusão
Os fantasmas sem abrigo
Nem no espaço, nem no chão...
As almas angustiadas,
Como águias desaninhadas,
Gemendo voam no ar.
E enchem de vagos lamentos
As vagas negras dos ventos,
Os ventos do negro marl
"Bati a todas as portas
Nem uma só me acolheu!..."
— "Entra! —: Uma voz argentina
Dentro do lar respondeu.
— "Entra, pois! Sombra exilada,
Entra! O verso — é uma pousada
Aos reis que perdidos vão.
A estrofe — é a púrpura extrema,
Último trono — é o poema!
Último asilo — a Canção!..."
Por velhos, vãos motivos
Mistério há sempre de pintar
Como quem lê um livro
Com melodia por traçar
Eu só dependo de reais
Toques, anúncios, sinais
Favoráveis, fatais
Aonde você mora?
Aonde você foi morar?
Nem sempre dá as caras
Às vezes custa pra pintar
Nós só queremos te saudar
Dogmas, prenúncios, cristãos
Irremediáveis mortais...
É fácil, muito fácil, se apaixonar por alguém. Basta um olhar, um toque que seja gostoso, sexo agradável, enfim, esse conjunto de coisas que nos faz agir como bobos apaixonados (mais idiota quem nunca se apaixonou).
Mas tenho visto - e até mesmo sentido - a cada dia, que estamos perdendo essa capacidade de nos apaixonar, ou simplesmente estamos temendo nos apaixonar.
Me lembro da mãe de uma amiga que uma vez me perguntou se eu estava apaixonado e eu respondi que sempre estava apaixonado. E que sou um apaixonado.
O mundo, a vida vai nos conduzindo por caminhos que nos faz perder essa capacidade de nos apaixonar. Acordar correndo para pegar o ônibus ou o metrô, chegar ao trabalho, fazer aquele serviço sem amor que preenche nossos dias pensando que não foi nada daquilo que sonhávamos quando crianças, almoço num self-service qualquer, com pessoas desconhecidas, cumpre o segundo tempo do trabalho, vai pra casa, assiste novela, pensa no final de semana e não vive o hoje.
E a paixão? Pra onde vai?
Quando se pode fazer algo diferente é simples, mas e quando não se pode? Mas acho pior é quando podemos fazer algo e não fazemos.
E constantemente sinto vontade de me apaixonar. Fazer um trabalho que me dê tesão, conhecer alguém que vá me dar - novamente - aquele frio na espinha (e que hoje se transformou em aperto no coração). E se for pra estabelecer uma meta na minha vida, estabeleço aqui a meta de Me apaixonar.
E quem nunca se apaixonou não sabe o que está perdendo. Eu prefiro mil vezes me apaixonar por dez coisas ao mesmo tempo e sentir essa paixão do que preencher minha vida com burocracias e etiquetas que nada me dizem, apenas me sufocam.
É fácil, muito fácil, se apaixonar. Difícil é se abrir para isso...
Imagem do dia:
Apaixone-se.
Texto do dia
A paixão medida
Carlos Drummond de Andrade
Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?
Os Dois Cavalheiros de Verona, espetáculo do Nós do Morro que esteve em cartaz até domingo no Sesi foi um belo exemplo de como a obra de Shakespeare é eterna e aceita cores diferentes. Unindo sarcasmo, música e um belíssimo trabalho de corpo, o espetáculo mal visto por alguns críticos mais, digamos, ultrapassados, agradou - e muito - ao público presente no Sábado.
Com uma mistura de grupo mambembe e um ar de jovens fazendo luau, o Nós do Morro demonstrou sua inteligência e respeito ao trabalho de grupo.
Inicialmente tive receio de que a presença de Caio Blat no lugar de Thiago Martins pudesse ofuscar o restante do grupo, já que algumas menininhas mais exaltadas cochichavam sem parar quando o viram pela primeira vez, mas não foi isso que aconteceu.
Não podemos também afirmar que o grupo naquele espetáculo brilhe por conta de ter ótimos atores. Alguns parecem ser alunos de uma peça de escola do ensino médio, o que de maneira alguma os transforme em atores ruins, longe de mim querer atestar isso. Apenas afirmo que alguns são realmente bons atores e num grupo heterogêneo notamos facilmente os que brilham mais do que os outros.
Porém este fato não prejudica o espetáculo de maneira alguma, no meu caso fiquei muito mais à vontade para desfrutar. Não há coisa que eu mais odeie do que pessoas que vão ao teatro apenas para ver os defeitos.
Os Dois Cavalheiros de Verona foi uma deliciosa experiência, um Shakespeare leve e divertido como deve ser.
ASSISTA!!!
Que Terá Acontecido a Baby Jane? Com Bette Davis e Joan Crawford.
Classificação: Imperdível Uma aula de o que é ser atriz.
Hoje vi um toldo do qual pingavam gotas acumuladas da chuva. Uma gota de cada vez que lentamente partia da quina do toldo, desprendia-se com um cuidado medroso e se jogava na aventura da calçada. Ela era brilhante porque sobre ela refletia a luz branca do poste e embaixo, na calçada, lá onde gota a gota ia caindo havia uma marca de água.
Imaginei a cidade vazia e só aquele toldo, daquele prédio, naquela rua, do qual lentamente ia caindo gota por gota da chuva acumulada. E a música desse balé tedioso era tranqüila, uma valsa leve leve, sem grandes sonoridades.
Minha vida passou em frames por aquela gota. E me lembrei de um sonho que tive na última noite. Nele, alguém morria e eu me lamentava não ter dito pela última vez que amava. E não é o amor isto? Uma gota que se desprende de um lugar e passa a outro e a outro e a outro? E para ela é tudo difícil, porque é lento, porque ela precisa se soltar de um lado para cair em outro, num canto totalmente desconhecido.
E eu chorei. Chorei porque o cinema diz que é para sempre, mas a vida nem sempre imita a arte.
Insensíveis ao esforço vital da gota, transeuntes apressados preocupavam-se apenas em se desviar das gotas. Eram inconvenientes.
E eu quis descer do ônibus naquele momento, me transformar num pássaro ou num fluido qualquer para chegar ali e com as mãos segurar uma a uma aquelas gotas.
E se fosse um filme, a câmera faria um close nas minhas mãos e subiria até um plano bem alto e provavelmente as pessoas continuariam correndo e somente eu, minhas mãos e as gotas permaneceríamos calmos, lentos...
Texto do dia
Do Dia Após a Noite
Jean Cândido
Não lhe dei nada
Além de um arrepio na alma
E a liberdade do tédio que dá
A falta de calor
Da falta de amor
Que a solidão dá
E sei que fez alguma diferença
O perfume deixado, o vinho derramado
A música calada da noite
E os beijos derramados em calda
Por teu corpo, teus travesseiros e chão
E foi chegado o momento
Aquele em que o sol ilumina
Os cômodos escurecidos e silenciosos
E então, o tempo,
Aquele em que a porta se fecha
Deixando pra trás o gozo, o gosto
O tempero, o sal, o doce
Essas coisas todas que ficam na língua
Gravadas e cravadas
Como marcas queimadas
De registros de propriedade.
Imagem do dia Musician in the Rain de Robert Doisneau
ASSISTA!!
Quando Fala o Coração (SpellBound)
De Alfred Hitchcock Com Ingrid Bergman e Gregory Peck
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in
Lift me like an olive branch and be my homeward dove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Oh let me see your beauty when the witnesses are gone
Let me feel you moving like they do in Babylon
Show me slowly what I only know the limits of
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the wedding now, dance me on and on
Dance me very tenderly and dance me very long
We're both of us beneath our love, we're both of us above
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the children who are asking to be born
Dance me through the curtains that our kisses have outworn
Raise a tent of shelter now, though every thread is torn
Dance me to the end of love
Dance me to your beauty with a burning violin
Dance me through the panic till I'm gathered safely in
Touch me with your naked hand or touch me with your glove
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Dance me to the end of love
Não é segredo algum, embora um livro tenha sido lançado com essa epígrafe, que nosso pensamento atrai aquilo que determinamos. Isso é dito há anos pela PNL (Programação Neuro-Lingüística), pela Física Quântica, pelos magos do Poder do Subconsciente (instância que para mim não existe).
Mas deixando de lado incongruências filosóficas, o fato é que realmente nosso pensamento é determinante sobre aquilo que recebemos do Universo. Há quanto tempo escutamos aquela frase: "Quando queremos muito algo, o Universo conspira a nosso favor". Lendo agora O Segredo, depois de assistir Quem somos Nós? só posso dizer que o universo sempre conspira a nosso favor. A favor daquilo que pensamos. Se pensamos em algo ruim, se focamos nossa atenção no que será maléfico para nossas vidas, é isso que atrairemos. Quando desejamos e pensamos em coisas boas, obviamente receberemos essas coisas.
É muito sério pensar nessas questões, embora muitos "intelectualóides" de plantão caguem pra isso. A energia que enviamos para o mundo é aquela que recebemos em troca. Quando pensamos que o mundo está uma merda o que estamos fazendo para que ele mude? Economizamos água? Eliminamos os sentimentos de arrogância, orgulho e rancor? Parece que permaneceremos na "merda" (com o perdão da palavra).
Mas ainda há esperança. As pessoas estão percebendo que só ficar reclamando é bobagem e começam a promover mudanças.
Voi là?
Texto do dia
Momento de Gratidão
Do Blog Designando (nos meus links)
Vou lançar um exercício aqui no blog que durará o mês de fevereiro mas deve ser posto em prática diariamente na vida de cada um. Eu sempre falo aqui que a gente deve focar naquilo que tem e não naquilo que não tem. Só essa mudança de foco já faz maravilhas na vida de uma pessoa. Então, além de focar, vamos agradecer à Deus, ao universo, à quem quer que seja - não importa, pelas coisas que temos em nossas vidas.
Então o exercício é o seguinte: todo o dia à noite, antes de dormir, pense em uma coisa pela qual você é grato. Mentalize e agradeça de coração. Eu vou fazer esse exercício publicamente aqui no blog durante o mês de fevereiro e vou continuar fazendo sob a forma de pensamento durante todos os outros dias. Ao final de cada post eu vou pensar em alguma coisa na minha vida pela qual sou grata.
Vale agradecer por qualquer coisa: das mais pequenas às mais grandiosas. Vale agradecer pelo sorriso que recebeu de um desconhecido na rua aquele dia, pelo passarinho que viu da sua janela, por uma pessoa importante que tem na sua vida, por uma casa, por um momento. Qualquer coisa. O importante é reconhecer aquilo que temos e dar valor. Agradecer de coração.
Convido todos à participarem desse exercício comigo. À que vocês são gratos?
Imagem do dia
Fui buscar na internet uma imagem que tivesse ligação com gratidão. E olhem o que encotrei no site www.aila.org.br (Alianca Internacional do Animal):
A foto mostra uma cadela Doberman lambendo um bombeiro exausto. Ele tinha acabado de salvá-la de um incêndio em sua casa, resgatando-a
e levando-a para o gramado da frente. Ela estava prenha. O bombeiro teve medo dela no início, pois nunca antes ele tinha resgatado um doberman.
Quando finalmente o fogo foi extinto, o bombeiro sentou na grama pra recuperar o fôlego e descansar.Um fotógrafo do jornal "The Observer", notou o doberman olhando para o bombeiro. Ele a viu andar na direção dele e se perguntou o que a cachorra iria fazer. Enquanto o fotógrafo levantava a câmera, ela se aproximou do bombeiro que tinha salvo sua vida e as dos seus filhos e beijou-o.
LEIA!!!!
UM, NENHUM E CEM MIL de Luigi Pirandello Ed. Cosac & Naify
Considerado o romance mais complexo do grande dramaturgo, romancista e contista italiano Luigi Pirandello (1867-1936).
Um, nenhum e cem mil é uma especulação metafísica, poética e bem-humorada do protagonista Vitangelo Moscarda sobre sua identidade. Esta edição é enriquecida pela apresentação do crítico Alfredo Bosi e por entrevista que o historiador Sérgio Buarque de Holanda fez com o autor italiano, em 1927.
Talvez eu esteja um pouco como essa música. E sei que sempre quando estou assim, logo saio mais fortalecido.
É só ter muita paciência e acreditar...
Pierrot
(Marina Lima)
Sim, eu resolvi me ausentar
Para ocultar a minha dor
Fugi, menti
Talvez por pudor
Desde então tanta coisa aconteceu
Que eu parei pra melhor pensar:
Voltei pra te dizer o quanto eu senti
Não te beijar
E a vida segue, sempre nesse vai e vem
Que não passa das ondas do amor
Gira, roda
Como um pierrot
Eis que um dia aquela bela casa cai
E não há mais como negar:
Voltei prá te dizer que aqui no meu Brasil
Outra flor não há
Aqui: cada cidade é uma ilha, sem laços, traços, sem trilha
E o medo a nos rodear
Então: bem vindos à minha terra feita de homens em guerra
E outros loucos pra amar
E tem sido assim, desde que o mundo é mundo
Os homens temem a paixão
Ela fere, ela mata
Tal qual um dragão
Enfrentar ainda causa tanto medo
Mas fugir é bem pior:
Voltei prá te dizer que nessa guerra
Não há vencedor
Aqui: cada cidade é um porto, disse o poeta prum broto
Que não queria arriscar
Vem, bem vindo a minha terra, feita de homens em guerra
E um outro louco pra amar.
Às vezes não te dá vontade de chorar por causa de um amor perdido? Acho que vivo preso ao passado porque sinceramente vivo chorando por amores perdidos. Não por causa de qualquer amor perdido mas por causa daqueles grandes. Aqueles em que se acredita que tudo pode valer a pena.
Acho que uma das grandes desvantagens dos sonhos é que muitas vezes eles te levam pra longe das pessoas que se ama. E pode acontecer com qualquer um. Comigo, com você ou com alguém que você já conheceu.
E por amor, eu entendo ser aquela coisa que sobe pela espinha e dá um nó na garganta cada vez que se sente saudade. Mesmo aqueles que deixaram mágoa. Mas como eu ouvi hoje: orgulho não combina com as questões do coração. Mas por mais que alguém me diga isso, na prática não é tão fácil.
Quando me deu vontade de largar tudo e voltar pra minha vidinha besta por causa de alguém eu deixei passar, porque infelizmente nossa vida não é uma comédia romântica e algumas coisas nessa mesma vida exigem voto. Certos estilos de vida são votivos e não é diferente comigo. Talvez seja pra você ou pro seu vizinho.
É difícil dizer que se ama alguém, porque às vezes o amor é tão grande que faltam palavras e aí eu deixei esse poema do Mário Quintana no post anterior: Não sei, nunca soube o que dizer-te (...)
Às vezes dá saudade. Às vezes sinto vontade de chorar. Mas também, em seguida, vem aquela sensação de que o que ficou no passado é porque precisava ficar no passado. È preciso seguir em frente. E fazer poemas.
Texto do dia
Horas de Saudade
Castro Alves
Tudo vem me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase qu'inda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
D'Ave-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo n'alma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras ¿ ave do céu... minh'alma ¿ o ninho!
Por onde trilhas ¿ um perfume expande-se
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço...
E teu rastro de amor guarda minh'alma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos!...
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
Mario Quintana
Eu queria trazer-te uns versos muito lindos
colhidos no mais íntimo de mim...
Suas palavras
seriam as mais simples do mundo,
porém não sei que luz as iluminaria
que terias de fechar teus olhos para as ouvir...
Sim! Uma luz que viria de dentro delas,
como essa que acende inesperadas cores
nas lanternas chinesas de papel!
Trago-te palavras, apenas... e que estão escritas
do lado de fora do papel... Não sei, eu nunca soube o que dizer-te
e este poema vai morrendo, ardente e puro, ao vento
da Poesia...
como
uma pobre lanterna que incendiou!
in Quintana de Bolso - LP&M
OUÇA!!!!
Harry Connick Jr - Chanson du vieux carré Classificação: Imperdível
Aniversário é sempre um tempo complicado. É como se fosse auto-declaração de guerra de mim contra mim mesmo.
De um lado, aliados do "mim" forte, seguro e arrogante e do outro o "mim" fraco, medroso e pessimista. No Tratado de Paz há uma cláusula pouco respeitado onde deveríamos conviver em perfeita harmonia.
Em tempo de aniversário remexo meus papéis e vejo que escrevo mal, vejo pieguices sem tamanho e sinto vontade de rasgas tudo. Queimar não. Faz mal ao meio-ambiente. E também porque alguém pode encontrar os pedaços espalhados, juntá-los e guardá-los para a posteridade.
Há em mim um "mim" vaidoso que morre de medo de ser esquecido, deixado no limbo, na sala escura dos objetos pouco usados e das personalidades sem valor algum para quem quer que seja.
Em dia de aniversário há uma sensação de que estou velho demais para colocar novamente o brinco que tirei porque alguém disse que não gostava dele em mim (ah! esses amores que ficam guardados no fundo do coração e insistem em não desocupá-lo), para fazer outro curso ou mudar de estratégia militar. Esse "mim" medroso!
Mas tenho a impressão de que estou apenas recomeçando um novo tempo - apesar dos perigos - e que é preciso arriscar amores diferentes, amigos diferentes, lugares, histórias, momentos e experiências diferentes.
Entender o que é ser olhado com ternura por quem eu quero bem. Poder deitar mais no colo de minha mãe e no peito de meu pai do que ano passo e ser mais compreensivo, menos cruel.
Aniversário é como a limpeza de um enorme armário de aço onde guardo meus arquivos pessoais envolvidos em pastas cuidadosamente preenchidas. Algumas lacradas e que tão cedo não gostaria de reabrir, mas que preciso. É uma limpeza lenta, dessas em que perdemos horas com centenas de papéis espalhados pelo chão para que possamos reler coisas antigas e nos emocionar novamente, rasgar escritos sem importância, tirar poeira, cupins e mofo.
É um redescobrimento de "mim", um reformular de regras, desejos e sentimentos.
Por isso acredito quando dizem "Parabéns pra você". Depois de um trabalho tão árduo, que outra coisa poderiam dizer?
Imagem do dia
Via Catarina, PORTO de Ricardo "TattooDevil" da Costa
Depois de dois meses eu volto a escrever no blog. Sei que não são muitas pessoas que o acessam, ao menos não deixam mensagens por aqui. Mas de qualquer forma peço desculpas àqueles que passeiam por aqui de vez em quando.
Tenho passado por dias estranhos. Conhecendo muitas pessoas diferentes e me assustando um pouco com a falta de laços mais fortalecidos. Sempre gostei de ter muitos amigos, não sou daquele tipo popular, falador, mas sempre gostei de saber que as pessoas com quem eu me relacionava eram realmente pessoas com quem eu tinha algum tipo de laço afetivo. E, amigos, tenho me fodido de verde e amarelo. Na verdade, tenho conhecido boas pessoas e algumas estão se tornado bons e quem sabe eu diria ótimos amigos. Isso continua acontecendo. O que tenho descoberto é que sempre me considerei como alguém que soubesse identificar nas pessoas o que elas tinham de bom ou de ruim. Era como se eu fosse um juiz etéreo, impassível de erro. Para os amigos que sabem das últimas histórias da minha vida, posso dizer que eu estava redondamente errado.
Deixar de acreditar nas pessoas não é o meu sonho de consumo. Deixar de confiar também não. Continuo confiando primeiro pra depois desconfiar. Mas é cada vez maior o número de pessoas que vêm me mostrando que estou errado. Não falo isso com amargura, nem como forma de me vitimar, falo com estupefação, com a estupefação de quem sempre acreditou. E acho que até nesse ponto o Rio de Janeiro tem me feito crescer.
Esta madrugada, voltando para casa, vi uma senhora magra, negra dormindo no ponto de ônibus. Tinha um lenço envolto na cabeça, usava uma sandalinha de couro, dessas tipo franciscano e meias brancas nos pés. Dormia com a cabeça torta, com o corpo típico de quem se entregou ao sono. Olhei para seu braço e nele havia uma pulseira com imagens de santos (dessas que a gente faz escapulários). Sagrados Corações de Jesus e de Maria. Senti vontade de chorar. Fiquei pensando que provavelmente ela reza todos os dias e talvez até mesmo beije aquelas imagens na esperança de que o dia será melhor ou diferente, ou simplesmente, vai ser como os outros, sem nenhuma desagradável surpresa. Senti vontade de chorar porque fiquei pensando se foi realmente uma escolha ela estar ali as seis da manhã dormindo no ponto de ônibus.
Pergunto se é realmente uma escolha porque há uma difusão de idéias de que se você desejar o universo conspira a seu favor. E acho que fica mais fácil para quem tem o mínimo de conforto.
Ando com medo de dizer "eu te amo", simplesmente pelo fato de que não tenho mais certeza se poderei dizer à mesma pessoa novamente a mesma coisa. Ultimamente as pessoas têm me despertado esse medo. Pessoas importantes pra mim. Qual o momento certo de dizer? O fato de dizer fará com que as pessoas ajam exatamente para que você se arrependa do que disse? E eu não sou de me arrepender, mas acho que a idade vai nos deixando assim. Palavras não são para o vento, elas são aquilo que nos resta. Quando você estiver sem nada, ainda lhe resta a palavra. Ou como disse Pablo Neruda, "podem nos arrancar tudo", mas a palavra não.
E acho que às vezes nos colocamos em armadilhas que nos criamos e ficamos perdidos porque não parece haver outra saída. Quando saída é tudo o que queremos. Mas como fazer? O que fazer?
Estou assim como um mês que não passa do meio e talvez um talento por pouco perdido.
Será que escolhemos as pessoas que amamos?
E no entanto, com tantas dificuldades, com tanta coisa ruim no mundo, parece que o simples fato de aquela mulher estar ali, dormindo no ponto de ônibus, com sua pulseirinha de sagrado coração tá me dizendo, mesmo sem falar: "Continua! Vá em frente! Se você pode, se você tem condições...Faça-o por mim, por você, por quem não pode". E é hora de respirar fundo, sacodir a poeira, colocar o amor machucado dentro de uma gaveta escura e seguir em frente. Porque não há outra maneira. Não pode haver. Se houvesse seria o contrário e o contrário seria a morte. É difícil viver, mas se não fosse, do que valeria?
Texto do dia
Letra da música de Jorge Drexler.
Já é um poema e tem muito a ver com que estou sentindo.
Al Otro Lado del Rio
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río
El día le irá pudiendo
poco a poco al frío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río
Sobre todo creo que
no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima
y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama
casi un suspiro
Rema, rema, rema-a
Rema, rema, rema-a
En esta orilla del mundo
lo que no es presa es baldío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río
Yo muy serio voy remando
muy adentro sonrío
Creo que he visto una luz
al otro lado del río
Sobre todo creo que
no todo está perdido
Tanta lágrima, tanta lágrima
y yo, soy un vaso vacío
Oigo una voz que me llama
casi un suspiro
Rema, rema, rema-a
Rema, rema, rema-a
Clavo mi remo en el agua
Llevo tu remo en el mío
creo que he visto una luz
al otro lado del río
No quarto bagunçado, mas com a austeridade própria de quem ainda não chegou à decadência tão comum para algumas pessoas de sua idade. Um quarto grande onde abriga sua vida. Tudo o que puder se imaginar de material e não-material de sua vida estão ali.
Olhar para ela conversando é como estar num sonho bom onde sua aura é vista como uma sombra branca e fosca, como se entre ela houvesse uma névoa leve e alva. Sua voz se transformava naqueles momentos em um som bom de se ouvir. O vestido escolhido para aquela noite não poderia ser melhor, gosto muito mais de vê-la nesses vestidos de cores peroladas, leves, desses que caem sobre seu corpo sem dificuldade e que o vento desenha os contornos detalhadamente, como se por capricho.
Ela ainda iria se preparar para sair. Iria se maquiar como sempre fazia. Sempre o mesmo ritual esperado e inebriante. Na pequena penteadeira de onde se via na extremidade superior direita uma espécie de cordão de lã que entrelaçava a quina do espelho e corria até seu meio com uma linda flor feita de linha de bordar.
O espelho pequeno, próprio de uma mulher que quer ter certeza da perfeição do que está fazendo no próprio rosto, era iluminado por um abajur que ficava trinta centímetros acima, cuidadosamente ajustado para iluminar corretamente seu rosto. Sentada de lado com uma perna à frente e a outra caída de lado na cadeira, mostrando sua panturrilha alva e a parte traseira de seu sapato.
Os frascos de perfume transparentes que como lentes de aumento potencializavam a cor rubra do lenço caído por trás, suas sombras dando a idéia de serem partes distintas de um todo composto de pequenas realidades. Brincos e cordões despejados por sobre um pote davam àquela hora de maquiagem um enlevo de frescor, mágica e ternura que somente uma vez na vida você desejaria ter o prazer de assistir e já se sentiria feliz. Bem feliz.
Ontem vi o sol nascer no Arpoador pela primeira vez. E foi lindo. É maravilhoso ver o poder que o sol possui de iluminar tudo mesmo antes de aparecer no horizonte, lá naquela linha no fim do mar. E depois de um bom tempo em que podemos distinguir o verde do azul vem um pequeno filete amarelo que vai se tornando um círculo e de repente está no alto, esplendoroso.
De um lado o Arpoador, do outro o Dois Irmãos. Ver o Dois Irmãos se tornar uma montanha e não mais um contorno é tão emocionante que não há como explicar.
E o sol nasce pra dizer que um novo dia acontece todo dia e com ele vamos deixando as coisas do passado no passado.
E quando se tem um sol nascente na sua frente, não muita coisa pra se dizer. Há?
Imagem do dia
Nascer do Sol II de Silvio Dias Retirado do site Olhares.com
Poesia do dia
O que Nós Vemos
Alberto Caeiro
O que nós vemos das cousas são as cousas.
Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
Se ver e ouvir são ver e ouvir?
O essencial é saber ver,
Saber ver sem estar a pensar,
Saber ver quando se vê,
E nem pensar quando se vê
Nem ver quando se pensa.
Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
Isso exige um estudo profundo,
Uma aprendizagem de desaprender
E uma seqüestração na liberdade daquele convento
De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
E as flores as penitentes convictas de um só dia,
Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
Nem as flores senão flores.
Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.
Pois foi uma mulher. Uma mulher que fisicamente me chamou a atenção. Deve ter sua faixa de 40 a 45 anos (e eu sempre achei as mulheres mais velhas bem mais interessantes). Seu cabelo liso, loiro - provavelmente tingido, pois percebi lembranças de um cabelo escuro pelo desgaste da pintura. Cabelos brancos, fios e fios na parte superior da cabeça. E um cabelo liso, escovado cuidadosamente e bem cortado. Os olhos azuis e não sei dizer se brilhantes ou opacos. Às vezes eu acho difícil reconhecer a diferença. E provavelmente vou projetar nela aquilo que eu gostaria que ela fosse. A história que eu inventar para ela. Brilhantes: ela acorda sorrindo a cada manhã, feliz da vida porque está viva e sempre pensa que um dia é um dia e pode fazer dela o mais feliz de toda a sua vida. Opacos: ela acorda com semblante triste, se olha no espelho e descobre que sozinha, está envelhecendo. Não é casada, não tem filhos, um trabalho que poderia ser melhor, mas precisa continuar.
Seus olhos azuis são abraçados por longos cílios negros, destacados por um lápis de olho e ela os tem expressivos. Na boca um batom muito discreto, assim como suas ações. Tudo é muito leve. Seu sentar, seu modo de olhar, sua respiração. Ela é magra, mas não magricela. Diria que está em forma. Uma calça de que tecido não sei. Uma camiseta com um corpete branco de algodão por cima e um sapato de salto baixo.
Ao meu lado, uma negra. Essa sim. Linda! De vinte e poucos anos, com cabelos rastafári, um batom vermelho destacando seus lábios grossos, uma pele de fazer inveja a qualquer um e uns olhos brilhantes, brilhantes toda vida. Sua roupa não é extravagante, mas é sensual. Duas mulheres tão diferentes e unidas.
Com a negra, duas crianças. (e eu lá escutando Celia Cruz, que por acaso era apelidada de "Azúcar Negra"). Dois negrinhos bem arrumadinhos, mas bastante sapecas. (Ei! Ainda se usa essa palavra "sapeca" por alguém da minha idade?). Ela com um I-Pod na bolsa e os fones sendo divididos pelos dois "sapecas". Meu amigo: "Eles estão como nós, dividindo o fone". Realmente estavam e havia uma cumplicidade deles com nós dois por isso. Também eram dois que dividiam um mesmo fone. Duas crianças negras, dois jovens adultos de passagem brancos. Tão diferentes e tão unidos.
Foi quando percebi um sorriso nela. A loira. A interessante. E comecei a pensar nela. Em tudo que ela já havia feito naquele dia e o que ainda iria fazer. O que será que ela está pensando? Ela é casada? É sozinha? Separada? Não usa aliança, nem de viúva. Alguém ainda usa aliança de viúva? Será alegre essa mulher? Meu amigo também ri e eu percebo que não entendo de fato do que eles estão rindo porque nem ao menos prestei atenção aos dois moleques. Eu ri dela. (Devia ter rido pra ela, para que percebesse o quão interessante é, mas senti vergonha. Ela ficaria tímida).
Desceu na mesma estação que a negra e os dois moleques, que relutantemente entregaram os fones à moça, a outra. Que me olhou. Sim, ela me olhou e seu sorriso fio leve. Será que percebeu o quanto eu a achei bonita e sexy? Que coisa mais antiga pra se dizer: "Sexy". Mas acho tão indiscreto dizer: gostosa. Porque meu desejo não era o de comer, era de me deliciar só com a visão. Ela era bela pra se ver numa vitrine. A outra, que desceu junto com a negra, sorriu. Para eles. Teve momento em que ela desejou ter filhos? Será que ela invejou aquela moça com as crianças? Queria ela estar ali dividindo para eles o fone. E ela se foi. E no fone dividido entre mim e meu amigo tocaria "Quizas, Quizas, Quizas".
Imagem do dia:
ASSISTA!!!
Viagem Urbana (Tube Tales) Seis curtas que se passam no metrô. Maravilhoso!
Uma das minhas músicas prediletas do Cazuza se chama Blues da Piedade. Gosto dessa música porque ele fala exatamente aquilo que eu gostaria de falar pra muitas pessoas.
"vou cantar pr'os miseráveis que vagam pelo mundo derrotados, pr'essas sementes mal-plantadas que já nascem com cara de abortadas, pr'as pessoas de alma bem pequena, remoendo pequenos problemas, querendo sempre ter aquilo que não têm. Pra quem não sabe amar, fica esperando alguém que caiba nos seus sonhos".
Acho que vez ou outra todos nós merecemos esse blues da piedade. Afinal, quem nunca se olhou no espelho e se achou feio ou estranho? Até Ana Paula Arósio.
Quem nunca se sentiu infeliz ou tolo ou chato ou burro? Eu vivo me sentindo assim. Talvez porque não seja fácil ser quem somos. Talvez porque não seja fácil carregar atrás de nós um cemitério de sentimentos e velhas lembranças do passado. Será envelhecer realmente tão difícil? Ou será mais difícil para alguns do que para outros? O que determina essa diferença? Mas ao mesmo tempo que penso nessa dificuldade do envelhecimento como "privilégio" de quem está passando dos quarenta ou cinqüenta ou sessenta (como meus pais), penso que se trata de um belo preconceito. E quem não é preconceituoso?
Digo preconceito porque envelhecemos todos. Dia após dia e cada dia é novo. O que mantém alguém vivo aos 100 anos além de um azar da biologia? Ou será sorte?
Li há pouco o livro Mrs. Dalloway de Virgínia Woolf e me emocionei. Me emocionei com cada passagem, com a idade dos personagens e a relação de cada um com o fato. Envelhecer é fato, não dá pra escapar. E se a morte bate à nossa porta todos os dias, do 0 aos 120 anos, é a vida quem não a deixa entrar. Ou no caso de Mrs. Dalloway, é a própria morte quem nos convida a viver. É como se a vida fosse realmente o preparativo para uma grande festa que pode ser, por que não, a morte. A morte é uma grande festa? Que coisa mais byroniana pra se dizer! A morte pode ser sim uma grande festa de despedida de uma vida gloriosa. Gloriosa em seus pequenos detalhes.
Mas prefiro acreditar que é a vida a grande festa. E perdemos esta festa pensando demais na morte. Ou deixando que ela entre um pouquinho a cada dia em nossa casa. Impedir que ela entre não é possível, mas é possível que ela entre com calma, sem grandes alardes.
A vida pode ser um Carnaval.
Imagem do dia
Texto do dia
La Vida es Un Carnaval
Celia Cruz
Todo aquel que piensa
que la vida es desigual
Tiene que saber que no es asi
Que la vida es una hermosura
Hay que vivirla
Todo aquel que piense
Que esta solo y que esta mal
Tiene que saber que no es asi
Que en la vida no hay nadie solo
Y siempre hay alguien
Ay, no hay que llorar
Que la vida es un carnaval
y es mas bello vivir cantando
Ay, no hay que llorar
que la vida es un carnaval
E las penas se van cantando
Todo aquel que piensa
Que la vida siempre es cruel
Tiene que saber que no es asi
Que tan solo hay momentos malos
Y todo pasa
Todo aquel que piense
Que esto nunca va a cambiar
Tiene que saber que no es asi Que al mal tiempo, buena cara
Y todo cambia
Para aquellos que se quejan tanto
Para aquellos que solo critican
Para aquellos que usan las armas
Para aquellos que nos contaminen
Para aquellos que hacen la guerra
Para aquellos que vivin pecando
Para aquellos que nos maltratan
Para aquellos que nos contagian
Tenho pensado bastante, ultimamente, sobre nossa forma de ver, pensar e agir no mundo. Tenho pensado principalmente no quanto somos bons ou maus.
Há muito tempo que eu já havia deixado de lado a idéia de que o homem é "naturalmente bom, a sociedade é que o corrompe". Principalmente porque há um paradoxo simples nessa frase. Se a sociedade é formada por homens então o homem corrompe o homem e aí lembramos do nosso Hobbes. "Homem lobo do homem".
Ok. Primeiro ítem vencido. A psicanálise também não acredita nessa onda de o homem ser naturalmente bom. As crianças já demonstram requintes de crueldade em suas ações.
O filme Dogville, na minha concepção, mostra bem essa realidade. E talvez a cena mais forte tenha sido a que o gângster atira num bebê. Meu primeiro impulso foi o de pensar na crueldade porque era apenas uma criança. Mas depois, contextualizando, era necessário. Aquela criança já estava contaminada pela crueldade daquele lugar. E observando as atitudes da Grace, penso que havia ali um leão preso pedindo pra ser solto e eles apenas provocaram a liberdade desse leão.
Se todos nós somos naturalmente maus, como fazer para nos tornarmos bons? E como fazer isso se cada vez mais pessoas deixaram de acreditar que possa existir algo de bom nesta sociedade? Às vezes até mesmo eu deixo de acreditar. Fico escutando as pessoas dizerem coisas e pensando: "Ela pode estar falando da boca pra fora". E tem aquela frase do Tim Maia, já cantada pelo Cazuza: "Os fãs de hoje são os linchadores de amanhã". Não será isso verdade?
Somos realmente egoístas e egocêntricos, cada qual à sua maneira. Mas somos. E mentimos, e jogamos. Lembro-me de um livro que li onde dizia que as duas forças que movem as ações do homem são o amor e o medo. Todas as suas respostas vão depender de qual sentimento é mais forte em você. E acho que o medo está imperando muito mais forte no mundo de hoje.
O medo de amar me faz ser mais frio e líquido em minhas relações. O medo de ser enganado me faz não confiar nas pessoas. O medo de que não acreditem em mim me faz criar artifícios para que acreditem: eu minto sobre o que sou e sobre o que penso e sinto. O medo de envelhecer me faz buscar artifícios para permanecer sempre jovem: me torno fútil. O medo de mim me faz pensar em superficialidades: me torno débil.
O amor constrói. O medo destrói. Será mesmo isso? Ou estou enganado?
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Texto do dia
Trecho de Sociabilidade e sociedade de risco: um estudo sobre relações na modernidade. de Cristiano Guedes.
"a misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê¿los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender" (BAUMAN, 2004, p. 8).
A intenção de estar junto e ao mesmo tempo não estabelecer relações duradouras é uma das principiais razões da ambivalência característica dos relacionamentos atuais. Tal ambivalência resulta principalmente da instabilidade que impera na modernidade líquida, época de incertezas e inseguranças provenientes do risco que poderá trazer um novo relacionamento diante do qual previsões e mecanismos de controle não se aplicam. Bauman, ao dissecar os líquidos relacionamentos modernos, mostra como a interação entre homens e mulheres reflete uma ordem social pautada por riscos socialmente produzidos.
A escolha dos relacionamentos como objeto de estudo é justificado, segundo Bauman, em virtude das qualidades que possuem e os tornam representativos da sociedade moderna. A impossibilidade de prever quando e como ocorrerá um relacionamento não está restrita a casos de amor. A previsibilidade seguida da possibilidade de exercer controle sobre os diferentes tipos de relações constituintes das sociedades contemporâneas era uma das expectativas em relação à passagem de uma modernidade sólida para uma modernidade líquida.
"Os tempos modernos encontraram os sólidos pré¿modernos em estado avançado de desintegração; e um dos motivos mais fortes por trás da urgência em derretê¿los era o desejo, por uma vez, de descobrir ou inventar sólidos de solidez duradoura, solidez em que se pudesse confiar e que tornaria o mundo previsível e, portanto, administrável" (BAUMAN, 2001, p. 10).
O desejo não só deixou de ser concretizado, como a insegurança passou a caracterizar as relações de amor e, como resultado, a ansiedade, a superficialidade e a brevidade dos relacionamentos surgem como mecanismos de defesa empregados na relação com a alteridade.
Diante do risco representado pela decisão de ingressar em relações amorosas, as pessoas têm¿se amparado em dois tipos de estratégias de proteção: "fixação" e "flutuação". A "fixação" pode ser compreendida como uma tentativa de preservar o relacionamento apesar da impossibilidade de controlá¿lo. Trata¿se do
"esforço para emancipar o relacionamento de sentimentos erráticos e vacilantes, para assegurar que ¿ aconteça o que acontecer com suas emoções ¿ os parceiros continuem a beneficiar¿se dos dons do amor: o interesse, o cuidado, a responsabilidade do outro parceiro. Um esforço para alcançar o estado em que se possa continuar recebendo sem dar mais, ou dando não mais do que o padrão estabelecido exige" (BAUMAN, 1997, p. 115).
Nesse sentido, a pessoa busca evitar a ansiedade e constante possibilidade do fim do relacionamento. Investe¿se na "vontade de cuidar e de preservar o objeto cuidado", ainda que exija renúncias ou mesmo implique rotinas, afinal "o eu que ama se expande doando¿se ao objeto amado" (BAUMAN, 2004, p. 24). Contudo a rede de proteção criada pode representar aprisionamento, escravidão e fim da relação3. Investe¿se no exercício da tolerância para lidar com a diferença que a alteridade representa, diferença que deve ser suportada sob pena de resultar no fim do relacionamento.
Os adeptos da "flutuação", entretanto, não apresentam a mesma perseverança. Não estão dispostos a fazer muitas concessões. Pautam¿se por princípios de custo¿benefício. Tal como nas relações de mercado, conforme os lucros obtidos, o relacionamento continuará recebendo investimentos ou será suspenso4. Bauman apresenta a "flutuação" como "a recusa de conceder o caráter árduo da tarefa e o duro trabalho implicado. A estratégia de "cortar as próprias perdas", de "não investir dinheiro bom em busca de mau", de desistir de buscar alhures outra tentativa, uma vez que parece que os ganhos caíram abaixo do nível das despesas que se precisa para assegurá¿los. Nessa estratégia, escapa¿se da insegurança mais do que se luta com ela, na esperança de que se possa encontrar a segurança alhures a custos mais baixos e com esforço menos oneroso" (BAUMAN, 1997, p. 115).
A liberdade para se abandonar a relação a qualquer momento é latente, o amor assume a sua face episódica, ou seja, não está alicerçado em compromissos a longo prazo. Privilegia¿se o momento em detrimento do futuro, a trajetória do relacionamento não tem importância. Não há qualquer tipo de garantia. A "fixação" e a "flutuação" medeiam, cada uma a seu modo, a tênue fronteira entre segurança e dependência (como um tipo de possessão/escravidão), por um lado, e liberdade e insegurança, por outro. Esses extremos, em torno dos quais podem ser situados os relacionamentos, são responsáveis pela ambivalência que caracteriza o amor.
LEIA!!!!
Amor Líquido:
Sobre a fragilidade dos laços humanos Zygmunt Bauman
Jorge Zahar Editor
Acho que todo mundo um dia na vida já parou pra pensar que nada no mundo é para sempre. Não adianta. Nada mesmo.
As pérolas morrem, as pessoas morrem, tudo aquilo que nós conhecemos, vemos...tudo... vai acabar um dia. Pensar nisso pode deixar alguns em profunda depressão. A mim deixa angustiado. Angustiado em pensar que cada dia é um novo dia e que o ontem já foi e o hoje se vai a cada minuto.
Sempre duvidei muito dos extremos, talvez porque às vezes eu sou muito extremo. Ou eu me entrego demais ou não me entrego. Ou eu amo ou ignoro. Talvez ignorar seja um meio-termo entre o amor e o ódio.
É bom pensar que esse mundo que hoje vivemos, um dia, não passou de parte de uma partícula mínima que se expandiu e se transformou no universo. E como o universo, tal qual o conhecemos, um dia teve um começo, também terá um fim. Como será esse fim? Não sei. Ninguém sabe. Mas isso é o menos importante.
O importante, pra mim, é pensar que o universo está dando um recado simples. Viva! E viva como se fosse o último dia. Um amigo me lembrou dessa música do Moska ontem: "Meu amor, o que você faria, se só te restasse esse dia?" Não é também para agirmos de forma inconseqüente, mas de forma coerente com os nossos sentimentos. Amar sem medo, viver sem medo, ir atrás dos sonhos...Expandir!!!
E como é bom expandir. E como é bom voar. E ser livre pra isso.
Meu amor, o que você faria?
Texto do dia
Último Dia
Paulinho Moska e Billy Brandão
Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia?
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia?
Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Corria pr'um shopping center
Ou para uma academia?
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia?
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Andava pelado na chuva?
Corria no meio da rua?
Entrava de roupa no mar?
Trepava sem camisinha?
Meu amor
O que você faria?
O que você faria?
Abria a porta do hospício?
Trancava a da delegacia?
Dinamitava o meu carro?
Parava o tráfego e ria?
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria?
Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...
Imagem do dia:
Expanda!
LEIA!!!
Big Bang
Simon Singh
Ed. Record
Se não for pra estudar, pelo menos para se inspirar.